Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 6 – Se o ódio nasce da inveja.

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O sexto discute-se assim. – Parece que o ódio não nasce da inveja.

1. – Pois, a inveja é a tristeza que temos por causa dos bens alheios. Ora, o ódio não nasce da tristeza, mas antes, ao inverso, pois, nós nos entristecemos com a presença dos males que odiamos. Logo, o ódio não nasce da inveja.

2. Demais. – O ódio se opõe ao amor. Ora, o amor do próximo se refere ao amor de Deus, como se demonstrou. Logo, também o ódio ao próximo se refere ao ódio a Deus. Mas, o ódio a Deus não é causado pela inveja, pois não invejamos os que distam muito de nós, senão os que nos são próximos, com está claro no filósofo. Logo, o ódio não é causando pela inveja.

3. Demais. – Um efeito tem uma só causa. Ora, o ódio é causado pela ira; pois, como diz Agostinho, a ira, crescendo, transforma-se em ódio. Logo, o ódio não é causado pela inveja.

Mas, em contrário, Gregório diz que da inveja nasce o ódio.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos, ódio ao próximo vem em último lugar no progresso do pecado, porque se opõe ao amor pelo qual naturalmente amamos o próximo. Ora, por querermos evitar o que devemos naturalmente fugir, nos afastamos do natural. Mas naturalmente todo animal foge a tristeza, assim como apete o prazer, conforme está claro no Filósofo. Por onde, assim como o amor é causado pelo prazer, assim pela tristeza é causado o ódio. Pois, assim como somos levados a amar as coisas que nos agradam, pelas considerarmos sob a noção de bem, assim, pelas considerarmos sob a de mal, somos levados a odiar as que nos contristam. Por onde, sendo a inveja uma tristeza causada pelo bem do próximo, resulta que esse bem se nos torna odioso. E de aí o nascer, da inveja, o ódio.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ A potência apetitiva, como a apreensiva, refletindo-se sobre os seus atos, resulta nos movimentos da virtude apetitiva um certo círculo. Por onde, segundo o primeiro processo do movimento apetitivo, do amor resulta o desejo; donde resulta o prazer, quando se conseguiu o que se desejava. E como esse mesmo com prazer se no bem amado tem uma certa natureza de bem, resulta que o prazer causa o amor. E pela mesma razão, segue-se que a tristeza causa o ódio.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Uma é a natureza do amor e outra, a do ódio. Pois, o objeto do amor é o bem derivado de Deus para as criaturas; por onde, o amor se refere primeiramente a Deus, e depois, ao próximo. Ao passo que o objeto do ódio é o mal, que não existe em Deus, mas só nos seus efeitos; e por isso já dissemos que Deus não é objeto de ódio senão enquanto apreendido nos seus efeitos. Logo, o ódio ao próximo vem antes do ódio a Deus. Por onde, sendo a inveja do próximo a mãe do ódio para com ele, ela se torna, por consequência, a causa do ódio a Deus.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Nada impede, por diversas razões, um mesmo efeito provir de causas diversas. E assim, o ódio pode provir da ira e da inveja. Mais diretamente, porém, nasce da inveja, que nos torna objeto de tristeza e portanto de ódio, o bem mesmo do próximo. Mas da ira nasce o ódio, por um certo acréscimo. Pois, primeiro, pela ira desejamos o mal ao próximo, centro de uma certa medida, isto é, enquanto tem natureza de vingança. Mas depois, pela continuidade da ira, chegamos a desejar absolutamente o mal ao próximo, e isso implica por natureza, o ódio. Por onde, é claro que o ódio é causado pela inveja, formalmente, segundo a noção de objeto: porém, pela ira, dispositivamente.