Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se a contenção é pecado mortal.

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O primeiro discute-se assim. – Parece que a contenção não é pecado mortal.

1. – Pois, os varões espirituais não caem em pecado mortal; ora, entre eles há, entretanto, contenção, segundo aquilo do Evangelho: Excitou-se entre os discípulos de Jesus a questão sobre qual deles se devia reputar o maior. Logo, a contenção não é pecado mortal.

2. Demais. – Ninguém de boa disposição deve com prazer-se com o pecado mortal do próximo. Ora, diz o Apóstolo: Outros pregam a Cristo por contenção; e em seguida acrescenta: Não só nisto me alegro, mas ainda me alegrarei. Logo, a contenção não é pecado mortal.

3. Demais. – Sucede que certos contendem, em juízo ou em disputa, não com ânimo vulgar de malfazer, mas antes, visando o bem. Tais aqueles que, disputando, contendem com os heréticos; donde, sobre aquilo da Escritura ­ Aconteceu um dia, ele dizer a Glosa: Os católicos não se resolvem a contender contra os heréticos, sem primeiro serem provocados à luta. Logo, a contenção não é pecado mortal.

4. Demais. – Parece que Jó lutou com Deus, conforme aquilo da Escritura: Porventura o que disputa com Deus tão facilmente o deixa? E, contudo, Jó não pecou mortalmente, pois, dele diz o Senhor: Vós não falastes diante de mim o que era reto, como falou o meu servo Jó. Logo, a contenção nem sempre é pecado mortal.

Mas, em contrário, a contenção contraria ao preceito do Apóstolo, que diz: Foge de contendas de palavras; e noutro lugar a contenção enumerada entre as obras da carne, que os que tais coisas cometem não possuirão o reino de Deus, como no mesmo passo se diz: Ora, tudo o que exclui do reino de Deus e contraria a um preceito é pecado mortal. Logo, a contenção é pecado mortal.

SOLUÇÃO. – Contender é tender contra alguém. Por onde, assim como a discórdia implica uma certa contrariedade na vontade, assim a contenção importa uma certa outra nas palavras. E por isso também, ao desenrolar-se de um discurso em antíteses se chama contenção, que Túlio considera figura de retórica, quando diz: A contenção consiste em o discurso tecer-se de coisas contrárias; por exemplo, a adulação parte de princípio agradáveis, mas os seus resultados são muito amargos.

Ora, a contrariedade de palavras podemos considerá-la à dupla luz: quanto à intenção do contendente e quanto ao modo. Na intenção devemos considerar se se contraria à verdade, o que é censurável; ou se à falsidade, o que é louvável. No modo, devemos considerar se um tal modo convém às pessoas e às coisas de que se trata, o que é louvável, e por isso Túlio diz: ser a contenção um discurso veemente para confirmar, e acomodado à refutação. Ou a contenção é contrária a conveniência das pessoas e das coisas e então é censurável.

Se pois considerarmos a contenção que implica a impugnação da verdade e o seu modo desordenado, é pecado mortal. E nesse sentido, Ambrósio define a contenção dizendo: A contenção é a impugnação da verdade confiada no clamor. – Se porém, chamarmos contenção à impugnação de falsidade com conveniente modo de acrimônia, nesse caso é louvável. – Se porém considerarmos a contenção como importando a impugnação de falsidade de modo desordenado, em tal caso pode ser pecado venial, salvo se talvez a desordem for tamanha, no contender, a ponto de produzir escândalo nos outros. Por isso o Apóstolo, depois de ter dito: – Foge de contendas de palavras – acrescenta: que para nada aproveitam, senão para perverter aos que as ouvem.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Os discípulos de Cristo não promoviam a contenção com a intenção de impugnar a verdade, pois cada qual defendia o que lhe parecia verdadeiro. Havia, porém desordem na contenção deles, por contenderem sobre o que não deviam contender, a saber, primado da honra; pois ainda não eram espirituais, como diz a Glosa a esse lugar. Por isso, o Senhor lhes impôs silêncio, justamente.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Os que pregavam a Cristo por espírito de contenção eram repreensíveis; pois embora não impugnassem a verdade da fé, mas a pregassem, impugnavam, contudo a verdade pensando que assim provocavam a aflição ao Apóstolo, que a pregava. Por isso ele não se alegrava com a contenção deles, mas, do fruto daí proveniente, a saber, a anunciação de Cristo; pois do mal também nasce ocasionalmente o bem.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Segundo a ideia completa de contenção, enquanto pecado mortal, contende em juízo quem impugna a verdade da justiça; e contende, disputando, quem entende impugnar a verdade da doutrina. E sendo assim, os católicos não contendem contra os heréticos, mas antes, inversamente. Se, porém considerarmos a contenção em juízo ou por disputa, na sua ideia imperfeita, isto é, enquanto implica uma certa acrimónia no falar, então nem sempre é pecado mortal.

RESPOSTA À QUARTA. – A contenção, no lugar citado, é tomada comumente, por disputa. Pois, dissera Jó alarei ao todo poderoso e com Deus desejo disputar, não querendo, porém, com isso, impugnar a verdade, mas indagá-la; nem, nessa indagação, deixar-se levar de qualquer desordem da alma ou de palavras.