Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se o cisma é pecado especial.

O primeiro discute-se assim. – Parece que o cisma não é pecado especial.

1. – Pois, cisma, como diz o papa Pelágio significa o mesmo que separação. Ora, todo pecado produz uma certa separação, segundo aquilo da Escritura. As vossas iniquidades são as que fizeram uma separação entre vós e o vosso Deus. Logo, o cisma não é pecado especial.

2. Demais. – São cismáticos os que não obedecem à Igreja. Ora, todo pecado torna o homem desobediente aos preceitos da Igreja, porque o pecado, segundo Ambrósio; é a desobediência aos preceitos celestes. Logo, todo pecado é cisma.

3. Demais. – A heresia também separa o homem da unidade da fé. Se pois, o nome de cisma implica separação, parece não diferir, como pecado especial, do pecado de infidelidade.

Mas, em contrário, Agostinho distingue entre o cisma e a heresia, dizendo: O cisma somente consiste em se comprazer o cismático em separar-se da sociedade dos fiéis, apesar de se professar a mesma opinião e o mesmo culto que eles; a heresia, porém, opina diversamente daquilo que crê a Igreja Católica. Logo, o cisma não é pecado geral.

SOLUÇÃO. – Como diz Isidoro, o nome de cisma é derivado de separação das almas, Ora, separação opõe-se à unidade. Por onde, pecado de cisma se chama ao que direta e essencialmente se opõe à unidade. Ora, assim como na ordem natural o que é acidental não constitui espécie, assim também na ordem moral, em que é essencial o intencional, e por acidente, o que não está na intenção. Por onde, é pecado especial o pecado de cisma propriamente dito, pelo qual o cismático tem a intenção de separar-se da unidade resultante da caridade, a qual, não somente une uma pessoa à outra pelo vínculo espiritual do amor, mas também toda a igreja pela unidade de espírito. Por onde, propriamente se chama cismático quem espontaneamente e intencionalmente se separa da unidade da Igreja, que é a unidade principal. Pois, a unidade particular de certos entre si ordena-se para a da igreja, como a composição de cada membro, no corpo natural, se ordena à unidade de todo o corpo. Ora, a unidade da Igreja tem duplo fundamento: a união mútua dos seus membros ou comunhão, e, além disso, o ordenar-se de todos esses membros para uma só cabeça conforme aquilo do Apóstolo: Inchado vãmente no sentido da sua carne, e sem estar unido com a cabeça, da qual todo o corpo fornido e organizado pelas suas ligaduras e juntas crescem em aumento de Deus. Ora, essa cabeça é o próprio Cristo, cujas vezes, – na Igreja, faz o Sumo Pontífice. Portanto, cismáticos se chamam os que recusam submeter-se ao Sumo Pontífice e viver em comunhão com os membros da Igreja, que lhes estão sujeitos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ O separar-se o homem de Deus pelo pecado não está na intenção do pecador; mais isso de dá fora da intenção dele, por buscar desordenadamente um bem mutável. O que, logo, não constitui cisma, propriamente falando.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Não obedecer aos preceitos, com uma certa rebelião, constitui a essência do cisma. Digo, porém, com rebelião, porque o cismático despreza os preceitos da Igreja e recusa admitir-lhe as decisões. Ora, isto não o faz qualquer pecador. Por onde, nem todo pecado é cisma.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A heresia e o cisma se distinguem pelas coisas às quais essencial e diretamente se opõem. Ora, a heresia se opõe essencialmente à fé; ao passo que o cisma, à unidade da caridade eclesiástica. Por onde, como a fé e a caridade são virtudes diversas, embora quem não tem fé também não tem caridade, assim, o cisma e a heresia são vícios diversos, embora todo herético também seja cismático, mas não inversamente. E é o que diz Jerônimo: Julgo haver entre o cisma e a heresia a diferença seguinte – a heresia professa dogmas perversos, ao passo que o cisma separa da Igreja. E, contudo, assim como a perda da caridade é caminho para a da fé, conforme aquilo da Escritura. Do que, apartando-se alguns, isto é, da caridade e de virtudes semelhantes, se deram a discursos sãos – assim também o cisma é caminho para a heresia. Por isso, Jerônimo acrescenta no mesmo lugar: o cisma, considerado no seu princípio e de certo modo pode ser compreendido como diverso da heresia; aliás, não há cisma que não venha acompanhado de alguma heresia, para parecer que o cismático se separou, com razão, da Igreja.