Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 2 – Se os clérigos e os bispos podem guerrear.

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O segundo discute-se assim. – Parece que os clérigos e os bispos podem guerrear.

1. – Pois, como se disse, as guerras são lícitas e justas quando defendem os pobres e toda a república, das injúrias dos inimigos. Ora, isto é, por excelência, próprio dos prelados, conforme o dizer de Gregório: Um lobo cai sobre as ovelhas quando um roubador injusto oprime os fiéis e os humildes, Então, o que parecia pastor e não o era, abandona as ovelhas e foge; porque temendo o perigo para si, não ousa resistir à injusta agressão. Logo, aos prelados e aos clérigos é justo guerrear.

2. Demais. – O Papa Leão diz: Chegavam-nos muitas vezes más noticias do lado dos sarracenos, e dizia-se que eles iam entrar secreta e furtivamente no porto dos Romanos. Por essa causa mandamos congregar o nosso povo e lhe ordenamos descesse ao litoral. Logo, aos prelados e aos clérigos é lícito guerrear.

3. Demais. – Parece que pela mesma razão por que fazemos uma coisa nela consentimos, conforme aquilo do Apóstolo: são dignos de morte não somente os que estas coisas fazem, senão também os que consentem aos que as fazem. Ora, mais consente quem induz os outros a fazê-las. Porém, é lícito aos bispos e aos clérigos induzir os outros à guerra, pois, diz o direito canônico: pela exortação e pelas preces de Adriano, bispo de Roma, Carlos empreendeu a guerra contra os lombardos, Logo, é lícito aos bispos e aos clérigos guerrear.

4. Demais – Aquilo que é em si mesmo honesto e meritório, não é ilícito aos prelados e aos clérigos. Ora, guerrear é às vezes honesto e meritório: assim se diz que, se alguém morreu pela verdade da fé, salvação da pátria e defesa dos cristãos obterá de Deus o prêmio celeste. Portanto, é lícito aos bispos e clérigos guerrear.

Mas, em contrário, a Pedro e, na sua pessoa aos bispos e aos clérigos, diz o Evangelho: Mete a tua espada na bainha. Logo, não lhes é lícito guerrear.

SOLUÇÃO. – Para o bem da sociedade humana muitas coisas são necessárias. Ora, diversas pessoas fazem, melhor e mais expeditamente que uma, coisas diversas, como está claro no Filósofo. E certas atividades repugnam de tal modo entre si que não podem ser exercidas simultaneamente. Por onde, aos destinados a coisas maiores se lhes proíbem as menores; assim, pelas leis humanas é proibido o negócio aos soldados, destinados aos exercícios da guerra.

Ora, os exercícios bélicos repugnam soberanamente às funções a que são destinados os bispos e os clérigos, por duas razões. – Primeiro, por uma razão geral, a saber, que esses exercícios trazem as maiores inquietações e, por isso, impedem grandemente a alma da contemplação das coisas divinas, do louvor de Deus e da oração pelo povo, o que tudo é obrigação dos clérigos. Por onde, assim como os negócios, por se enredar neles a alma demasiadamente, são interditos aos clérigos, assim também os exercícios bélicos, segundo aquilo da Escritura: Ninguém que milita para Deus se embaraça com negócios do século. – Segundo, por uma razão especial. Pois, todas as ordens dos clérigos se dirigem ao ministério do altar, no qual está sacramentalmente representada a paixão de Cristo, conforme aquilo da Escritura: Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que ele venha. Por onde, não lhes cabe matar nem derramar sangue, mas antes, estarem preparados a derramar o próprio sangue por Cristo, para imitarem nas obras o que fazem no ministério. Por isso, está instituído que quem derrama sangue, mesmo sem pecado, o faz irregularmente. Pois, a ninguém que seja destinado a uma obrigação é lícito o que o torna incompatível com ela. Portanto, ao clérigos de nenhum modo é lícito fazer guerra, ordenada à efusão do sangue.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Os prelados devem resistir não só aos lobos, que matam espiritualmente o rebanho, mas também aos roubadores e aos tiranos, que vexam corporalmente. Não, porém, usando pessoalmente de armas materiais, senão de espirituais, conforme aquilo do Apóstolo: As armas da nossa milícia não são carnais, mas espirituais. Que são as admoestações salutares, as orações devotas e, contra os pertinazes, a sentença de excomunhão.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Os prelados e os clérigos, por autoridade do superior, podem tomar parte nas guerras, não, certo, lutando com as próprias mãos, mas auxiliando espiritualmente, com suas exortações, absolvições e com socorros espirituais semelhantes, aos que lutam justamente. Assim, a lei antiga mandava que os sacerdotes fizessem soar, nas guerras, as buzinas sagradas. E, por isso, foi a princípio permitido que os bispos e os clérigos fossem à guerra. Mas, só por abuso lutarão os que o fizeram por mãos próprias.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Como dissemos toda potência, arte ou virtude, a que é próprio um fim, deve dispor dos meios conducentes a ele. Ora, as guerras materiais o povo fiel deve referi-las, como ao fim, ao bem espiritual divino, a que são destinados os clérigos. Por onde, a estes pertence dispor os outros e induzi-los a fazer uma guerra justa, Pois. não se lhes interdiz fazer guerra porque tal seja pecado, mas por não lhes convir à pessoa tal exercício.

RESPOSTA À QUARTA. – Embora, fazer guerras justas seja meritório, contudo se toma ilícito aos clérigos, por serem destinados a obras mais meritórias. Assim como o ato matrimonial pode ser meritório, e contudo é condenável para os que se votaram à virgindade, por lhes impor a obrigação a um bem maior.