Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se o escândalo é convenientemente definido como um dito ou um ato menos reto, que dá ocasião à queda

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O primeiro discute-se assim. – Parece que se define inconvenientemente o escândalo dizendo: é um dito ou um ato menos reto, que dá ocasião à queda.

1. – Pois, o escândalo é pecado, como depois se dirá. Ora, segundo Agostinho, o pecado é um ato, dito ou um desejo contra a lei de Deus. Logo, a referida definição é insuficiente, por omitir o pensamento ou o desejo.

2. Demais. – Sendo, dentre os atos virtuosos ou retos, um mais virtuoso ou mais reto que outro, só não é considerado menos reto o que é retíssimo. Se, pois, o escândalo é um dito ou ato menos reto, resulta que todo ato virtuoso, menos o ótimo, é escândalo.

3. Demais. – Ocasião significa causa acidental. Ora, o ocasional não deve ser incluído na definição, porque não especifica. Logo, é inconvenientemente incluída a ocasião na definição de escândalo,

4. Demais. – De qualquer ato de outrem podemos tirar ocasião de queda para nós por serem indeterminados as causas acidentais. Se pois o escândalo é o que dá a outrem ocasião de queda, qualquer ato ou dito poderá ser escândalo. O que parece inadmissível.

5. Demais. – Damos ocasião de queda ao próximo quando o ofendemos ou o enfraquecemos. Ora, o escândalo se divide, por contrariedade, da ofensa e da fraqueza, conforme a Escritura: Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem coisa em que teu irmão acha tropeço ou se escandaliza ou se enfraquece. Logo, a referida definição do escândalo não é conveniente.

Mas, em contrário, Jerônimo, explicando aquilo da Escritura – Sabes que os Fariseus, depois que ouviram o que disseste , etc. – comenta: Quando lemos – quem quer que escandalizar – por isso entendemos – quem der, por um dito ou um ato, ocasião de queda.

SOLUÇÃO. – No lugar citado, Jerônimo diz que ao chamado em grego axcxv8cxÀov podemos nós denominar tropeço ou queda ou encontrão do pé. Ora, dá-se às vezes que um óbice, materialmente falando, se nos opõe no caminho, chocando-nos com o qual expomo-nos a cair; e tal óbice se chama escândalo. Semelhantemente, trilhando a via espiritual, podemos nos expor à queda espiritual por um dito ou ato de outrem, a saber, que por seu conselho, indução ou exemplo nos arrasta ao pecado. Ora, por essência própria, só nos dispõe à queda espiritual o que tem alguma falta de retidão; pois, o perfeitamente reto, longe de levar o homem a cair, defende-o contra a queda. Logo, convenientemente se chama escândalo ao dito ou ato menos reto, que dá ocasião de queda.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ O pensamento ou a concupiscência do mal fica latente no coração. Por isso, não se propõe a outro como óbice que prepara a queda. Por onde, não pode ter natureza de escândalo.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Não se chama menos reto ao que é superado por uma outra retidão, mas o que tem alguma falta de retidão; quer seja o mal em si mesmo, como o pecado; quer o que encerra alguma aparência de mal, como quando alguém come num templo de ídolos. Pois, embora isto não seja em si mesmo pecado, se não for feito com má intenção, contudo, como tem certa aparência ou semelhança de veneração de um ídolo, pode dar a outrem ocasião de queda. Por isso, o Apóstolo adverte: Guardai-vos de toda a aparência do mal. Por onde, emprega-se convenientemente a expressão – menos redes, para que abranja tanto o pecado em si mesmo como o que tem aparência de mal.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Como já estabelecemos, nada pode ser causa suficiente de pecado, que é a ruína espiritual do homem, senão a vontade própria dele. Por onde, um dito ou um ato de outrem podem ser somente causa imperfeita que, de certo modo, induz à queda. Por isso, não diz a definição – dá causa de queda, mas – dá ocasião, o que significa uma causa imperfeita e não sempre causa acidental. E contudo, nada impede, que em certas definições se inclua o acidental, pois o que é para um acidental, pode convir essencialmente a outro; assim, a definição da fortuna inclui uma causa acidental, como o mostra Aristóteles.

RESPOSTA À QUARTA. – Um dito ou um ato de uma pessoa pode ser de dois modos causa de pecado para outra: essencial ou acidentalmente. – Essencialmente, quando, com uma palavra má ao um mau ato, intenciona induzir outra a pecar. Ora, mesmo sem ter intenção disso, o ato é tal que, por natureza, induz outra ao pecado; assim quando publicamente comete um pecado ou o que tem deste a semelhança. E então, quem pratica tal ato da propriamente ocasião de queda. Por isso, esse se chama escândalo ativo. – Acidentalmente, porém o dito ou o ato de uma pessoa é para outra ocasião de pecar quando, mesmo fora da intenção do agente e da natureza do seu ato, outra pessoa, mal disposta por tal obra, é induzida a pecar; por exemplo, quando alguém inveja os bens dos outros. E então, quem pratica um ato assim reto não dá, por si mesmo, ocasião; mas, o outro é que tira ocasião dele, conforme aquilo do Apóstolo: E o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, obrou em mim toda a concupiscência. Por isso, este é o escândalo passivo sem ser ativo, porque quem age retamente não é por si mesmo, ocasião da queda sofrida por outro. – Por onde acontece algumas vezes também que o escândalo é simultaneamente ativo para um, e passivo para outro; por exemplo, quando um peca induzido por outro. – Outras vezes, porém, o escândalo é ativo sem ser passivo; por exemplo, quando um induz, por palavras ou obras, outro a pecar, e este não consente. – Outras vezes, ainda, o escândalo é passivo sem ser ativo, como já dissemos.

RESPOSTA À QUINTA. – A fraqueza significa uma disposição para o escândalo; a ofensa significa a indignação contra quem peca, a qual pode às vezes existir sem a queda; o escândalo, porém, o tropeço mesmo que leva à queda.