Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 6 – Se os varões perfeitos são susceptíveis de escândalo ativo.

O sexto discute-se assim. – Parece que os varões perfeitos são susceptíveis de escândalo ativo.

1. – Pois, a paixão é efeito da ação. Ora, podemos nos escandalizar com ditos ou atos dos perfeitos, segundo aquilo da Escritura: Sabes que os Fariseus, depois que ouviram o que disseste, ficaram escandalizados? Logo, os varões perfeitos são susceptíveis de escândalo ativo.

2. Demais. – Pedro, depois de ter recebido o Espírito Santo, estava no estado dos perfeitos. Mas depois escandalizou os gentios, conforme o diz o Apóstolo: Quando vi que ela não andavam direitamente sequndo a verdade do Evangelho, disse a Cefas, isto é, a Pedro, diante de todos: Se tu, sendo judeu, viva como os gentios e não, como os Judeus, porque obrigas tu os gentios a judaizar? Logo os varões perfeitos são susceptíveis de escândalo ativo.

3. Demais. – O escândalo ativo é às vezes pecado venial. Ora, pode haver pecado venial nos varões perfeitos. Logo, também são eles susceptíveis de escândalo ativo.

Mas, em contrário. – Repugna mais à perfeição o escândalo ativo que o passivo. Ora, os varões perfeitos não são capazes de escândalo passivo. Logo, também, com maior razão, não o são do escândalo ativo.

SOLUÇÃO. – Há propriamente escândalo ativo quando alguém diz ou faz alguma coisa de natureza a levar outro a cair; e isso só pode ser um ato ou um dito desordenado. Ora, é próprio dos varões perfeitos subordinar o que fazem à regra da razão, conforme a Escritura: Faça-se tudo com decência e com ordem, entre vós. E essa cautela eles a empregam, não somente nas coisas com que pudessem ofender os outros, mas também naquelas com que lhes pudessem dar ocasião de ofender. E certamente, se nos seus ditos ou atos manifestos, faltar algo dessa moderação, isso provém da fraqueza humana que os faz desviarem-se da perfeição. Mas, não se desviam dela, contudo, de modo a afastarem-se muito da ordem da razão, senão pouco e levemente; o que não é coisa tão grande que daí possa racionalmente outrem tirar ocasião de pecar.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ­– O escândalo passivo é sempre causado por algum escândalo ativo; mas, nem sempre, por algum escândalo ativo de outrem, senão, daquele mesmo que é escandalizado, pois, a si mesmo se escandaliza.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Segundo a opinião de Agostinho e a do próprio Paulo, Pedro pecou, por certo, e foi repreensível, por separar-se dos gentios, afim de evitar o escândalo dos Judeus; pois tal o fazia incautamente, de certo modo, porque se escandalizavam com isso os gentios convertidos à fé. Contudo, não era esse ato de Pedro tão grave pecado que desse razão aos outros de se escandalizarem. Por onde, padeciam um escândalo passivo sem por isso ter Pedro cometido nenhum escândalo ativo.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Os pecados veniais dos perfeitos consistem sobretudo em movimentes súbitos, que, sendo ocultos, não podem escandalizar. Se porém, mesmo em ditos ou atos externos cometerem pecados veniais, são eles tão leves que, por si mesmos, não têm força para escandalizar.