Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 2 – Se a sabedoria tem o intelecto como sujeito.

O segundo discute-se assim. – Parece que a sabedoria não tem o intelecto como sujeito.

1. – Pois, diz Agostinho, que a sabedoria é a caridade de Deus. Ora, o sujeito da caridade é a vontade não o intelecto, como antes se estabelece Logo, a sabedoria não tem o intelecto como sujeito.

2. Demais. – A Escritura diz: A sabedoria, que faz o homem inteligente, é segundo o nome que tem. Ora, sabedoria ou sapiência significa como que sápida ciência, pois parece pertencer ao afeto, ao qual é próprio experimentar os prazeres ou as doçuras espirituais. Logo, a sabedoria não está no intelecto, mas antes no afeto.

3. Demais. – A potência intelectiva é suficientemente aperfeiçoada pelo dom do intelecto. Ora, o que pode ser feito por uma causa é superfluamente atribuído a mais de uma. Logo, não está no intelecto.

Mas, em contrário, diz Gregório, que a sabedoria é contrária à estultice. Ora, a estultice está no intelecto. Logo, também a sabedoria.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos, a sabedoria implica uma certa retidão do juízo fundado nas razões divinas. Ora, de dois modos pode o juízo ter a sua retidão: por causa do uso perfeito da razão, ou por uma certa conaturalidade com aquilo que deve julgar. Assim, no atinente à castidade, o que aprende a ciência moral julga retamente pela indagação racional; mas quem tem o hábito da castidade julga retamente de tal objeto por uma certa conaturalidade com ele. Por onde, julgar retamente das coisas divinas, pela indagação racional, é próprio da sabedoria, que é uma virtude intelectual; mas julgá-las retamente por uma certa conaturalidade com elas, é próprio da sabedoria enquanto dom do Espírito Santo. Assim, diz Dionísio que Hieroteu é perfeito, relativamente às coisas divinas, não só aprendendo-as, mas também recebendo-as passivamente. Ora, esse receber passivamente ou essa conaturalidade com as coisas divinas, dá-se pela caridade, que nos une a Deus, conforme aquilo da Escritura: O que está unido a Deus é um mesmo espírito com ele. Assim, pois, a sabedoria, como dom, tem, por certo, a sua causa na vontade, a saber, a caridade; mas a sua essência está no intelecto, cujo ato é julgar retamente, como dissemos antes.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ­– Agostinho se refere à sabedoria relativamente à sua causa. Donde também deriva o nome de sapiência, enquanto implica um certo sabor.

DONDE SE DEDUZ CLARA A RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO – dado que a interpretação supra do lugar de S. Agostinho, seja exata. O que não se dá, porque essa interpretação só convém ao nome de sapiência na língua latina; não lhe convém em grego, nem talvez nas outras línguas. Por onde, o nome de sapiência, no lugar citado, parece antes ser tomado pela sua fama, que a faz recomendada de todos.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O intelecto tem dois atos: perceber e julgar. Ao primeiro dos quais se ordena o dom do intelecto. E ao segundo, quanto às razões divinas, o dom da sabedoria; e quanto às razões humanas, o dom da ciência.