Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 6 – Se a sétima bem-aventurança corresponde ao dom da sabedoria.

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O sexto discute-se assim. – Parece que a sétima bem-aventurança não corresponde ao dom da sabedoria.

1. – Pois, a sétima bem-aventurança é: Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. Ora, ambas essas coisas pertencem imediatamente à caridade. Assim, da paz, diz a Escritura. Gozam muita paz os que amam a lua lei. E como diz o Apóstolo, a caridade de Deus está derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado; o qual é o Espírito de adoção de filhos, segundo o qual clamamos, dizendo: Pai, Pai, conforme o mesmo Apóstolo. Logo, a sétima bem-aventurança deve ser atribuída antes à caridade que à sabedoria.

2. Demais. – Uma causa se manifesta mais pelo seu efeito próximo elo que pelo remoto. Ora, parece que o efeito próximo da sabedoria é a caridade, conforme a Escritura: Pelas nações se transfunde nas almas santas, forma os amigos de Deus e dos profetas, Ora, a paz e a adoção dos filhos parece serem efeitos remotos, por procederem da caridade, como se disse. Logo, a bem-aventurança correspondente à sabedoria devia, antes, ser determinada pelo amor da caridade do que pela paz.

3. Demais. – A Escritura diz: A sabedoria que vem lá de cima, primeiramente é na verdade casta; depois, pacifica, moderada, dócil, susceptível de todo o bem, cheia de misericórdia e de bons frutos; não julga, não é dissimulada. Logo, a bem-aventurança, correspondente à sabedoria, não deve ser determinada, antes relativamente à paz, que aos outros efeitos da sabedoria celeste.

Mas, em contrário, Agostinho: A sabedoria convém aos pacíficos, que não sentem nenhum movimento de rebelião, mas nos quais tudo obedece à razão.

SOLUÇÃO. – A sétima bem-aventurança corresponde perfeitamente ao dom da sabedoria, tanto quanto ao mérito como quanto ao prêmio. – Pois, ao mérito é relativo o dito – bem-aventurados os pacíficos. E pacíficos se chamam, por assim dizer, os que estabelecem a paz, tanto em si mesmos como nos outros. O que num e noutro caso se dá, reduzindo-se à ordem devida as coisas que constituem a paz. Pois, a paz é a tranquilidade da ordem, como diz Agostinho. Ora, ordenar é próprio do sábio, como está claro no Filósofo. Por onde, o atributo de ser pacífica é convenientemente predicado da sabedoria. – Por outro lado, ao prêmio se refere o dito: Serão chamados filhos de Deus. Ora, filhos de Deus se chamam os que participam da semelhança do Filho unigênito e natural, conforme aquilo do Apóstolo – os que conheceu, na sua presciência para serem conformes a imagem de seu Filho, o qual é a Sabedoria gerada. Portanto, participando do dom da sabedoria o homem alcança a filiação divina.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ­– É próprio da caridade ter a paz; mas, estabelecer a paz é próprio da sabedoria ordenadora. ­ Também e semelhantemente, o Espírito Santo se chama Espírito de adopção, enquanto que por ele nos é dada a semelhança do Filho natural, que é a Sabedoria gerada.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O lugar citado deve entender-se da Sabedoria incriada, que primeiramente se nos une pelo dom da caridade e, assim, nos revela os mistérios, cujo conhecimento é a sabedoria infusa. Por onde, a sabedoria infusa, que é um dom, não é causa, mas antes, efeito da caridade.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Como já dissemos à sabedoria, enquanto dom, pertence, não somente contemplar as coisas divinas, mas também regular os atos humanos. Ora, na direção deles cumpre-lhe, primeiramente, remover os males contrários à sabedoria. Por isso, se diz que o temor é o princípio da sabedoria, enquanto nos afasta do mal. E por último, e como um fim, cumpre-lhe reduzir todas as coisas à ordem devida, o que pertence essencialmente à paz. Por isso, Jacó diz convenientemente, que a sabedoria que vem lá de cima, e é um dom do Espírito Santo, primeiramente é casta, quase evitando as corrupções do pecado; depois, pacifica, que é um efeito final da sabedoria, pelo qual é considerada bem-aventurança. – Mas, todas as atribuições seguintes fazem conhecer o que conduz à paz, segundo a ordem conveniente. Assim, ao homem que, pela pudicícia, se afasta da corrupção, o primeiro dever que lhe cumpre é, na medida em que lhe for possível, conservar o modo em todas as coisas; e por isso, a sabedoria é chamada moderada. Em segundo lugar, deve o homem, nos casos em que a si mesmo não se basta, aquiescer às advertências dos outros; e por isso a sabedoria é chamada dócil. E essas duas atribuições são relativas à consecução da paz em nós mesmos. Mas ulteriormente, para que o homem seja pacífico para com os outros, requer-se, primeiramente, que não lhes contrarie aos bens; e por isso, da sabedoria se diz que é susceptível de lodo o bem. Em segundo lugar, que se compadeça pelo afeto, com os defeitos do próximo, e lhes vá em socorro efetivamente: e, por isso, se diz que a sabedoria é cheia de misericórdia e de bons frutos, Em terceiro lugar se exige, seja solícito em corrigir os pecados dos outros; e por isso se diz, que não julga, não é dissimulada ; isto é, que, a pretexto de correção não dá vasão ao ódio.