Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 3 – Se podemos esperar para outrem a felicidade eterna.

O terceiro discute-se assim. – Parece que podemos esperar para outrem a felicidade eterna.

1. – Pois, diz o Apóstolo. Tendo por certo isto mesmo que quem começou em vós a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo. Ora, a perfeição desse dia será a felicidade eterna. Logo, podemos esperar para outrem essa felicidade.

2. Demais. – O que pedimos a Deus esperamos haver de alcançar dele. Ora, pedimos a Deus que leve os outros à felicidade eterna, conforme àquilo da Escritura: Orai uns pelos outros, para serdes salvos. Logo, podemos esperar para outrem a felicidade eterna.

3. Demais. – A esperança e o desespero têm o mesmo objeto. Ora, podemos desesperar da felicidade eterna alheia; do contrário, Agostinho teria dito inutilmente: de ninguém devemos desesperar, enquanto viver. Logo, também podemos esperar para outrem a vida eterna.

Mas, em contrário, Agostinho: só pode haver esperança daquilo que interessa à pessoa a quem a atribuímos.

SOLUÇÃO. – Podemos ter esperança de urna coisa, de dois modos. Primeiro, de modo absoluto; e então ela só pode ser a de um bem difícil que nos diga respeito. De outro modo, por pressuposição de outrem; e então, pode haver esperança também do que a outrem pertence. Para evidenciá-lo, devemos saber que o amor e a esperança diferem em o amor implicar a união do amante com o objeto amado; ao passo que a esperança implica um certo movimento ou tendência do apetite para um bem difícil. Ora, a união, operando-se entre seres distintos, o amor pode dizer diretamente respeito a outrem, a quem por ele nos unimos, considerando-o como nós mesmos. O movimento, porém, sempre tende para o termo próprio proporcionado ao móvel. Por onde, a esperança visa diretamente o bem próprio, e não o pertencente a outrem. Mas, pressuposta a união do amor com outrem, já então podemos desejar e esperar para ele, como para nós mesmos. E sendo assim, podemos esperar para outrem a vida eterna, quando com ele estamos unidos pelo amor. E como, pela mesma virtude da caridade, amamos a Deus, a nós mesmos e ao próximo, assim também, pela mesma virtude da esperança, esperamos para nós e para outrem.

E daqui se deduzem claras as RESPOSTAS ÀS OBJEÇÕES.