Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 8 – Se a caridade é anterior à esperança.

O oitavo discute-se assim. – Parece que a caridade é anterior à esperança.

1. – Pois, aquilo do Evangelho – Se tiverdes fé como um grão de mostarda, etc., – diz Ambrósio: Da fé procede a caridade; da caridade, a esperança. Logo, a fé é anterior à caridade e portanto, esta o é à esperança.

2. Demais. – Agostinho diz: os bons movimentos e afetos veem do amor e da santa caridade. Ora, esperar, enquanto constitui ato da esperança, é um bom movimento da alma. Logo, deriva da caridade.

3. Demais. – O Mestre das Sentenças diz: a esperança provém do mérito, o qual não somente precede o objeto esperado, mas também a esperança, precedida pela caridade, em virtude da natureza mesma desta. Logo, a caridade é anterior à esperança.

Mas, em contrário, a Escritura: O fim do preceito é a caridade nascida de um coração puro e duma boa consciência; isto é, da esperança, diz a Glosa. Logo, a esperança é anterior à caridade.

SOLUÇÃO. – Há uma dupla ordem: uma a da geração e da matéria, na qual o imperfeito é anterior ao perfeito; outra a da perfeição e da forma, na qual o perfeito é naturalmente anterior ao imperfeito. Ora, pela ordem no primeiro sentido, a esperança é anterior à caridade, o que assim se demonstra. A esperança, como todo movimento apetitivo, deriva do amor, conforme já vimos quando tratamos das paixões. Ora, há um amor perfeito e outro, imperfeito. Perfeito é o amor pelo qual alguém é amado em si mesmo; assim quando queremos o bem a uma pessoa, em si mesma considerada, como no caso do amigo que ama a seu amigo. Imperfeito é o amor pelo qual amamos um objeto, não em si mesmo, mas para virmos a possuir o bem que ele constitui; assim amamos aquilo que desejamos. Ora, no primeiro sentido o amor de Deus é próprio da caridade, que se une a Deus, em si mesmo. Ao passo que a esperança pertence ao amor, no segundo sentido, porque quem espera tem a intenção de obter alguma coisa para si. Por onde, na via da geração, a esperança é anterior à caridade. Pois, assim como uma pessoa é levada a amar a Deus, porque, temendo ser punido por ele, cessa de pecar, conforme diz Agostinho: assim também a esperança conduz à caridade, enquanto que, esperando sermos remunerados por Deus, somos excitados a amá-lo e a lhe observar os preceitos. Mas, na ordem da perfeição, a caridade é naturalmente anterior. Por onde advindo-lhe a caridade, a esperança torna-se mais perfeita, porque dos amigos é que principalmente esperamos. E, neste sentido, diz Ambrósio, que a esperança provém da caridade.

Donde se deduz clara a RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A esperança, como todo movimento apetitivo, provém de algum amor, pelo qual amamos o bem que esperamos. Mas nem toda esperança provém da caridade, senão só o movimento da esperança informada pela caridade, pela qual esperamos o bem, de Deus, como de amigo.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O Mestre se refere à esperança informada, a que naturalmente precede a caridade, e aos méritos por esta causados.