Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se a esperança tem a vontade, como sujeito.

O primeiro discute-se assim. – Parece que a esperança não tem a vontade como sujeito.

1. – Pois, o objeto da esperança é um bem difícil, conforme se disse. Ora, o difícil não é objeto da vontade, mas do apetite irascível. Logo, a esperança tem como sujeito, não a vontade, mas esse apetite.

2. Demais. – Quando uma só coisa é suficiente, não se lhe deve acrescentar outra. Ora, basta a caridade, a perfeitíssima das virtudes, para aperfeiçoar a potência da vontade. Logo, a esperança não tem na vontade o seu sujeito.

3. Demais. – Uma potência não pode exercer-se simultaneamente em dois atos; assim, o intelecto não pode inteligir muitas coisas ao mesmo tempo. Ora, o ato da esperança pode coexistir com o da caridade; e portanto, residindo manifestamente o ato de caridade na vontade, a esta não pertence o ato da esperança. Por onde, a vontade não tem como sujeito a caridade.

Mas, em contrário. – A alma não é capaz de atingir a Deus senão pelo espírito, que compreende a memória, a inteligência e a vontade, como se vê claramente em Agostinho. Ora, a esperança é uma virtude teologal, cujo objeto é Deus. Mas como a esperança não tem como sujeito nem a memória, nem a inteligência, pertencentes à potência cognoscitiva, resulta que o seu sujeito é a vontade.

SOLUÇÃO. – Como do sobredito se colhe, os hábitos conhecem-se pelos atos. Ora, o ato da esperança é um movimento da parte apetitiva, pois o seu objeto é o bem. Ora, o homem tem um duplo apetite: o sensitivo, que se divide em irascível e concupiscível, e o intelectual, chamado vontade, como já estabelecemos na Primeira Parte. Por onde, os mesmos movimentos, que coexistem com as paixões, no apetite inferior, existem sem elas, no superior, conforme do sobredito se, colige. Mas o ato da virtude da esperança não pode pertencer ao apetite sensitivo; porque o bem – objeto principal desta virtude – não é o bem sensível, mas o divino. Por onde, a esperança reside no apetite superior, chamado vontade, como no sujeito e não, no inferior, a que pertence o apetite irascível.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ O objeto do apetite irascível é o bem difícil sensível. Ao passo que o objeto da virtude da esperança é o bem difícil inteligível, ou antes, um bem difícil, superior à inteligência.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A caridade aperfeiçoa suficientemente a vontade só quanto ao ato do amor. Por isso, é necessária outra virtude para aperfeiçoá-la em vista de outro ato, e essa é a da esperança.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O movimento da esperança e o da caridade ordenam-se um para o outro, como do sobredito resulta. Por isso nada impede existam ambos simultaneamente na mesma potência. Assim, o intelecto pode inteligir simultaneamente muitas coisas ordenadas umas para as outras, como estabelecemos na Primeira Parte.