Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 3 – Se os condenados têm esperança.

O terceiro discute-se assim. – Parece que os condenados têm esperança.

1. – Pois, o diabo é condenado, e é mesmo o chefe dos condenados, conforme aquilo da Escritura: Apartai-vos de mim, malditos, para o jogo eterno, que está aparelhado para o diabo e para os seus anjos, Ora, o diabo tem esperança, segundo o diz a Escritura: Ele se enganará nas suas esperanças, Logo, parece que os condenados têm esperança.

2. Demais. – Assim como a fé pode ser informada e informe, assim também a esperança. Ora, os demônios e os condenados podem ter fé informe, conforme aquilo da Escritura: Os demônios creem e estremecem. Logo, parece que os condenados também podem ter a esperança informe.

3. Demais. – Nenhum homem pode depois da morte, acrescentar ao mérito ou ao demérito que teve em vida, segundo aquilo da Escritura: Se a árvore cair para a parte do meio-dia ou para a do norte, em qualquer lugar onde cair aí ficará. Ora, muitos condenados tiveram esperança, nesta vida, e nunca desesperaram. Logo, também terão esperança, na vida futura.

Mas, em contrário, a esperança causa a alegria, segundo aquilo do Apóstolo: Na esperança alegres. Ora, os condenados não estão na alegria, mas na dor e nos prantos, conforme a Escritura o diz: Os meus servos cantarão louvores pela exultação do seu coração, e vós dareis gritos pela dor do vosso mesmo coração, e pelo quebrantamento do vosso Espírito vivareis, Logo, os condenados não têm esperança.

SOLUÇÃO. – Assim como a felicidade, por essência, causa a quietação da vontade, assim, por essência, o que é infligido como pena repugna à mesma vontade. Ora, não pode o que é ignorado aquietar a vontade ou lhe repugnar. E por isso, Agostinho diz que os anjos não podiam ser perfeitamente felizes, no primeiro estado, antes da confirmação, nem miseráveis, antes da queda; porque não tinham presciência do que lhes ia suceder. Pois a perfeita e verdadeira felicidade exige estejamos certos da perpetuidade dela; do contrário, a vontade não se aquietaria. Semelhantemente, a perpetuidade da condenação faz parte da pena dos condenados; por onde, não seria verdadeira e essencialmente pena se não repugnasse à vontade; e isso não se daria se eles ignorassem a perpetuidade da sua condenação. Portanto, a condição miserável dos condenados implica-lhes a ciência, que de nenhum modo poderão escapar à condenação e alcançar a felicidade. Donde o dizer a Escritura: Não crê que se possa voltar das trevas à luz. Por onde é claro, que não podem conceber a felicidade como um bem possível, assim como não o podem os bem-aventurados, como um bem futuro. Logo, nem os bem-aventurados nem os condenados têm esperança. Mas podem tê-la os viadores ou os que estão no purgatório, pois, em ambas essas condições, concebem a felicidade como um futuro possível.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Como diz Gregório, o lugar alegado se aplica aos membros do diabo, cuia esperança será aniquilada. Ou, se o entendermos aplicado ao diabo mesmo, pode referir-se à esperança pela qual espera obter vitória sobre os santos, conforme ao que antes fora dito: Ele se promete que o Jordão entrará pela sua boca. Ora, esta não é a esperança de que agora tratamos.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Como diz Agostinho: a fé pode ler por objeto tanto as causas más como as boas, as passadas como as presentes e as futuras, as próprias e as alheias; mas esperança não podemos tê-la senão das causas boas futuras, e para nós mesmos. Por onde, poderiam ter os condenados, antes, fé informe, do que esperança, porque os bens divinos não se lhes apresentam como futuros possíveis, mas como ausentes.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A falta de esperança nos condenados não lhes faz variar o demérito, assim como a disparição da mesma, nos bem-aventurados, não lhes aumenta o mérito. Mas uma e outra coisa se dá pela mudança de estado.