Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 10 – Se o temor diminui com o aumento da caridade.

O décimo discute-se assim. – Parece que o temor diminui com o aumento da caridade.

1. – Pois, como diz Agostinho, quanto mais cresce a caridade, tanto mais diminui o temor.

2. Demais. – Aumentando a esperança, diminui o temor. Ora, aumentando a caridade, aumenta a esperança, como já se estabeleceu. Logo, aumentando a caridade, diminui o temor.

3. Demais. – O amor implica a união e o temor, a separação. Ora, o aumento daquela faz diminuir este. Logo, aumentando o amor de caridade, diminui o temor.

Mas, em contrário, Agostinho: O temor não só dá o começo, mas também a perfeição à sabedoria, pela qual amamos sobretudo a Deus, e ao próximo como a nós mesmos.

SOLUÇÃO. – Há duplo temor de Deus, como já dissemos: um filial, pelo qual tememos ofendê-la ou dele nos separar; outro, servil, pelo qual tememos a pena. Ora, o temor filial há de necessariamente aumentar, aumentando a caridade, assim como aumenta o efeito o aumento da causa. Pois, quanto mais amamos a alguém, tanto mais tememos ofendê-lo e dele nos separar. Mas o temor servil, quanto à sua servilidade, desaparece totalmente quando sobrevém a caridade; permanece porém em substância o temor da pena, como dissemos. E este temor diminui com o aumento da caridade, sobretudo no seu ato: pois quanto mais amamos a Deus tanto menos tememos a pena. Primeiro, porque damos menor atenção ao nosso bem próprio, ao qual vai de encontro a pena. Segundo, porque, unindo-nos a Deus mais fortemente, mais confiamos no prémio e por conseguinte menos tememos a pena.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Agostinho se refere ao temor da pena.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O temor da pena é o que diminui, quando aumenta a esperança. Mas o aumento desta faz crescer o temor filial. Pois, quanto mais certamente esperamos conseguir um bem, com o auxilio de outrem, tanto mais tememos ofendê-la ou dele nos separar.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O temor filial não implica a separação, mas antes a submissão; e teme separar-se dessa sujeição a Deus. Mas de algum modo denota uma separação, pois, longe de termos a presunção de nos igualar a Deus, submetemo-nos a ele. E essa separação também se encontra na caridade, pela qual amamos a Deus mais que a nós mesmos e acima de todas as coisas. Por onde, o amor de caridade, crescendo, não diminui a reverência do temor, mas antes, a aumenta.