Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 11 – Se o temor subsiste na pátria.

O undécimo discute-se assim. – Parece que o temor não subsiste na pátria.

1. – Pois, diz a Escritura: Gozará da abundância, sem temor de nenhum mal; o que se entende de quem já goza da sabedoria, na felicidade eterna. Ora, todo temor é relativo a algum mal, pois o mal é o seu objeto, como já se disse. Logo, nenhum temor haverá na pátria.

2. Demais. – Na pátria os homens se assemelharão a Deus, segundo aquilo da Escritura. Quando ele aparecer, seremos semelhantes a ele. Ora, Deus não teme nada. Logo, na pátria, os homens não terão nenhum temor.

3. Demais. – A esperança é mais perfeita que o temor, por ter por objeto um bem, ao passo que o objeto do temor é um mal. Ora, não haverá esperança na pátria. Logo, também não haverá temor.

Mas, em contrário, a Escritura. – O temor do Senhor é santo, que permanece por séculos de séculos.

SOLUÇÃO. – O temor servil ou o da pena de nenhum modo existirá na pátria; pois tal temor fica excluído pela segurança da felicidade eterna, o que é da essência mesma da felicidade como já dissemos. Mas o temor filial, como aumenta com a caridade, também se aperfeiçoa com a caridade perfeita. Por onde, não terá na pátria exatamente o mesmo ato que tem na vida presente.

Para evidenciá-lo cumpre saber que o objeto próprio do temor é um mal possível, assim como um bem possível é o objeto próprio da esperança. E sendo o movimento próprio do temor uma quase fuga, ele implica a fuga de um mal árduo possível, pois males pequenos não produzem o temor: Demais, como o bem de todo ser consiste em permanecer na sua ordem, assim o abandono dela constitui um mal. Ora, a ordem da criatura racional consiste na submissão a Deus e em dominar as outras criaturas. Por onde, assim como é um mal para a criatura racional submeter-se, por amor, a uma criatura inferior, assim também lho é não se submeter a Deus, mas ao contrário, insultá-lo presunçosamente ou desprezá-lo. Ora, esse mal é possível na criatura racional, considerada na sua natureza mesma, por causa da natural flexibilidade do livre arbítrio; mas não o é para os bem-aventurados, por causa da perfeição da glória. Portanto, a fuga do mal, consistente em pão submeter-se a Deus, mal possível à natureza, mas impossível à felicidade, subsistirá na pátria. Mas nesta vida, tal fuga é a de um mal absolutamente possível.

E por isso, comentando aquilo da Escritura. – As colunas do céu estremecem e tremem ao seu aceno – Gregório diz: As próprias virtudes celestes, que contemplam a Deus sem cessar, tremem nessa contemplação mama. Mas esse tremer, longe de lha ser uma pena, provém-lhes, não do temor, mas da admiração; isto é, por admirarem a Deus na sua existência transcendental e para elas incompreensível. Por seu lado, Agostinho admite a existência de um tal temor, na pátria, embora deixe a questão duvidosa. Esse temor casto, diz, que permanece sempre, pelos séculos dos séculos, se tiver ainda de existir no século futuro, já não será o temor receioso de um mal possível, mas o que até fixo num bem impossível de perder. Pois, onde o amor do bem já alcançado é imutável, é certo, se podemos assim dizer, ser o temor do mal, contra o qual devemos nos acautelar, uma segurança. Ora, essa denominação de temor casto significa a vontade, que nos leva necessariamente a não querer pecar; e isso, não pela inquietação de uma fraqueza ainda temerosa de pecar, mas por uma tranquila caridade a salvo do pecado. Ou, se temor de gênero absolutamente nenhum pode existir na pátria, talvez se quisesse fazer a referência a um temor, subsistente sempre, por todos os séculos, para dizer que subsistirá até onde puder chegar.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ­– O lugar citado exclui dos bem-aventurados o temor cheio de inquietação e de cautelas contra o mal; não porém o fundado na segurança, como diz Agostinho.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Como diz Dionísio tu mesmas causas são semelhantes e dissemelhantes a Deus; semelhantes, pela imitação contingente do inimitável, isto é, enquanto, na medida do possível, imitam a Deus, que não pode ser perfeitamente imitado. Dissemelhante, por ficarem as causas criadas aquém da sua causa, deficientes em relação às suas medidas infinitas e incomparáveis. Por onde, de não convir o temor a Deus, sem superior a quem deva submeter-se, não se segue não convenha aos bem-aventurados, cuja felicidade consiste na perfeita sujeição a Deus.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A esperança implica uma certa falta, a saber, a de uma felicidade futura, que desaparece com a presença desta. Ao passo que o temor implica uma falta natural à criatura, por distar infinitamente de Deus, o que ainda continuará a se dar na pátria. E por isso, o temor não desaparecerá totalmente na pátria.