Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 2 – Se o temor se divide convenientemente em temor filial, inicial, servil e do mundo.

O segundo discute-se assim. – Parece que o temor é inconvenientemente dividido em filial, inicial, servil e do mundo.

1. – Pois, Damasceno cita seis espécies de temor: a indolência, a confusão e outras, a que já fez referência, e que não se encontram na divisão presente. Logo, parece ser esta divisão inconveniente.

2. Demais. – Qualquer desses temores é bom ou mau. Ora, um deles – o natural – não é moralmente bom, pois existe nos demônios, conforme a Escriturar. Os demônios creem e estremecem. Nem, por outro lado, é mau, pois existe em Cristo, segundo ainda a Escritura: Jesus começou a ter pavor e a angustiar-se. Logo, é inconveniente a divisão supra referida, do temor.

3. Demais. – Uma é a relação entre o filho e o pai; outra, entre a mulher e o marido, e outra entre o escravo e o senhor. Ora, o temor filial, que é o do filho para com o pai, distingue-se do servil, que é o do escravo para com o Senhor. Logo, também o temor casto, próprio da esposa para com o esposo, deve distinguir-se dos outros temores citados.

4. Demais. – Como o temor servil, também o inicial e o do mundo temem a pena. Logo, esses temores não deviam ser distintos uns dos outros.

5. Demais. – Como a concupiscência busca o bem, assim o temor, o mal. Ora, uma é a concupiscência dos olhos, pela qual desejamos os bens do mundo, e outra, a da carne, pela qual desejamos o nosso prazer próprio. Logo, também o temor mundano, pelo qual tememos perder os bens externos, difere do humano, pelo qual tememos sofrer qualquer detrimento na nossa própria pessoa.

Mas, em contrário, a autoridade do Mestre das Sentenças.

SOLUÇÃO. – Tratamos agora do temor, enquanto que, de certo modo, nos orienta para Deus ou nos desvia dele. Ora, sendo o mal o objeto do temor, o homem às vezes, por causa do mal que teme, afasta-se de Deus; e este temor se chama humano ou do mundo. Outras vezes, porém, por causa do mal que teme volta­se para Deus e com ele se une. E esse mal é duplo: o da pena e o da culpa. Por onde, pelo temor servil e temendo a pena, orientamo-nos para Deus e com ele nos unimos. Se porém assim fizermos por temor da culpa, esse será o temor filial; pois é próprio do filho temer ofender ao pai. Se por fim agirmos de modo referido, por causa de ambos esses temores, haverá o temor inicial, meio termo entre os dois outros. E se o mal da culpa pode ser temido, já o dissemos quando tratamos da paixão do temor.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Damasceno divide o temor considerado como paixão da alma. Ora, a divisão atual é referida a Deus, como dissemos.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O bem moral consiste principalmente em nos orientarmos para Deus e o mal, em nos afastarmos dele. Por onde, todos os temores referidos implicam um mal moral, ou um bem. Mas o temor natural é pressuposto ao bem e ao mau moral. Por isso não está enumerado entre os temores referidos.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A relação, entre o escravo e o senhor se funda no poder deste, que sujeita a si aquele; ao passo que a relação entre filho e pai ou entre esposa e esposo se fundam, ao contrário, no afeto do filho, que se sujeita ao pai, ou da esposa, que se sujeita ao esposo, pela união do amor. Por onde, o temor filial e o casto são concernentes a uma mesma realidade. Pois, pelo amor de caridade, Deus se torna nosso pai, conforme aquilo da Escritura: Recebestes o espírito de adopção de filho, segundo o qual clamamos, dizendo: Pai, Pai. E por essa mesma caridade, Deus é também chamado nosso esposo, conforme aquele lugar: Eu vos tenho desposado para vos apresentar como virgem pura ao único esposo, Cristo. Ora, o temor servil é de outra ordem, por não incluir, por essência, a caridade.

RESPOSTA À QUARTA. – Os três referidos temores respeitam a pena, mas diversamente. Assim, o do mundo ou humano respeita a pena que afasta de Deus, a qual às vezes é infligida ou cominada pelos seus inimigos. O temor inicial, porém, e o servil, respeitam a pena, pela qual os homens são atraídos para Deus, divinamente infligida ou cominada; e a essa pena se refere o temor servil, principalmente, e o inicial, secundariamente.

RESPOSTA À QUINTA. – Pela mesma razão o homem se afasta de Deus, tanto pelo temor de perder os bens do mundo, como pelo de perder a integridade do corpo. Pois os bens exteriores pertencem ao corpo. Por onde, um e outro temor constituem, no caso vertente, um só, embora os males temidos sejam diversos, assim como os bens desejados. E dessa diversidade provém a diversidade específica dos pecados, embora lhes seja comum a todos o afastar de Deus.