Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 6 – Se o temor servil coexiste com a caridade.

O sexto discute-se assim. – Parece que o temor servil não coexiste com a caridade.

1 – Pois, como diz Agostinho, desde que a caridade começa a habitar na alma, ela expulsa o temor, que lhe preparou o lugar.

2. Demais. – A caridade de Deus está derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado, diz a Escritura. Ora, onde há o Espírito do Senhor, aí há a liberdade, como diz ainda o Apóstolo. Ora, a liberdade, excluindo a servidão, parece que a presença da caridade exclui o temor servil.

3. Demais. – O temor servil é causado pelo amor de nós mesmos, pois a pena diminui o nosso bem próprio. Ora, o amor de Deus exclui o amor próprio, pois faz-nos desprezar a nós mesmos, como claramente o afirma Agostinho, dizendo que o amor de Deus, até o desprezo de si próprio, é que constitui a cidade de Deus. Logo, parece que, com a sua presença, a caridade exclui o temor servil.

Mas, em contrário, o temor servil é um dom do Espírito Santo, como já dissemos. Ora, a caridade presente não exclui os dons do Espírito Santo, pelos quais ele habita em nós. Logo, presente, também ela não exclui o temor servil.

SOLUÇÃO. – O temor servil é causado pelo amor de nós mesmos, pois, é o temor da pena, que constitui detrimento a esse bem. Por onde, o temor da pena pode coexistir com a caridade, do mesmo modo que o pode o amor de nós mesmos; pois, pela mesma razão por que desejamos o nosso bem, tememos ser privados dele. Ora, o amor próprio pode manter tríplice relação com a caridade. Assim, de um modo, contraria a caridade, quando pomos o nosso fim no amor do bem próprio. De outro modo, inclui-se na caridade, quando nós nos amamos a nós mesmos por causa de Deus e em Deus. De um terceiro modo, distingue-se da caridade, sem a encontrar. Assim, quando nós nos amamos levados pela ideia do nosso bem próprio, sem contudo pormos nesse bem o nosso fim. E caso idêntico ao daquele em que temos amor especial pelo nosso próximo, além do amor de caridade, fundado em Deus, quando o amamos em razão da consanguinidade, ou de qualquer outra condição humana, contudo referível à caridade.

Portanto, o temor da pena está, de um modo, incluso na caridade; pois, separarmo-nos de Deus é uma pena, que a caridade teme sobretudo; e isto constitui o temor casto. De outro modo, encontrar a caridade, quando procuramos evitar a pena contrária ao nosso bem natural, como sendo o mal principal contrário ao bem que amamos como fim, e então o temor da pena não coexiste com a caridade. De outro modo, enfim, o temor da pena distingue-se substancialmente do temor casto, quando tememos o mal da pena, não por causa da separação de Deus, mas por ser nocivo ao nosso bem próprio. E, contudo não fazemos desse bem o nosso fim, e por isso não tememos o referido mal como um mal principal. Ora, esse temor da pena pode coexistir com a caridade. Mas não se chama servil senão quando a pena é temida como o mal principal, conforme do sobredito se colhe. Por onde o temor servil, como tal, não coexiste com a caridade; mas, a substância desse temor pode com ela coexistir, assim como o amor próprio pode coexistir com a mesma.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ No lugar citado, Agostinho se refere ao temor enquanto servil.

E do mesmo modo argumentam as duas outras objeções.