Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 8 – Se o temor inicial difere substancialmente do temor filial.

O oitavo discute-se assim. – Parece que o temor inicial difere substancialmente do temor filial.

1. – Pois, o temor filial é causado pelo amor. Ora, o temor inicial é o princípio do amor, conforme a Escritura: O temor de Deus é o principio do seu amor. Logo, o temor inicial é diferente do filial.

2. Demais. – O temor inicial teme a pena, objeto do temor servil; donde, parece que aquele é o mesmo que este. Ora, o temor servil difere do filial. Logo, também o temor inicial difere substancialmente do filial.

3. Demais. – O meio termo difere, pela mesma razão, de ambos os extremos. Ora, o temor inicial é um termo médio entre o servil e o filial. Logo, difere destes dois últimos.

Mas, em contrário, o perfeito e o imperfeito não diversificam a substância das coisas. Ora, o temor inicial e o filial diferem pela perfeição e pela imperfeição da caridade, como claramente o mostra Agostinho. Logo, o temor inicial não difere substancialmente do filial.

SOLUÇÃO. – O temor inicial assim se chama por ser um início. Mas, como o temor servil e o filial sejam, de certo modo, início da sabedoria, um e outro podem, de algum modo, ser chamados iniciais. Mas não é nesta acepção que é considerado o temor inicial, quando o distinguimos do temor servil e do filial. Mas, como o temor próprio dos principiantes, que, embora tenham o início do temor filial, sob a influência da caridade, não o têm contudo perfeitamente, porque ainda não chegaram à perfeição da caridade. Por onde, o temor inicial está para o filial, como a caridade imperfeita, para a perfeita. Ora, a caridade perfeita não difere essencialmente da imperfeita, mas só como estados diversos da caridade. E portanto devemos concluir que também o temor inicial, na acepção em que aqui o tomamos, não difere essencialmente do temor filial.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ O temor, que é inicio do amor é o temor servil, que introduz a caridade como a crina faz passar o fio, no dizer de Agostinho. Ou, se se faz referir o texto da Escritura ao temor inicial, o temor é chamado início do amor, não absolutamente, mas em relação ao estado da caridade perfeita.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O temor inicial não teme a pena como seu objeto próprio, mas enquanto lhe resta algo do temor servil, que, em substância, coexiste com a caridade, mas sem a servilidade. Mas o seu ato (servil) coexiste com a caridade imperfeita naquele que é levado a agir bem, não só pelo amor da justiça, mas também pelo temor da pena. Porém, esse ato cessa em quem tem a caridade perfeita, que lança fora ao temor acompanhado da pena, como diz a Escritura.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O temor inicial é um termo médio entre o servil e o filial; não como se dá entre realidades do mesmo gênero, mas como o imperfeito é meio termo entre o ser perfeito e o não ser, na expressão de Aristóteles. Mas esse ser imperfeito é substancialmente idêntico ao perfeito, e difere totalmente do não ser.