Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 9 – Se o temor é um dom do Espírito Santo.

O nono discute-se assim. – Parece que o temor não é um dom do Espírito Santo.

1 – Pois, nenhum dom do Espírito Santo se opõe à virtude, que também é um desses dons; do contrário o Espírito Santo seria oposto a si mesmo. Ora, o temor se opõe à esperança, que é uma virtude. Logo, o temor não é um dom do Espírito Santo.

2. Demais. – É próprio da virtude teologal, ter Deus como objeto. Ora, o temor, temendo a Deus, tem-no como objeto. Logo, não é um dom, mas uma virtude teologal.

3. Demais. – O temor resulta do amor. Ora, este é considerado como virtude teologal. Logo, também o temor, que tem o mesmo objeto, é uma virtude teologal.

4. Demais. – Gregório diz, que o temor nos é dado para combatermos a soberba. – Ora, a esta se opõe a virtude da humildade. Logo, também o temor está compreendido Dessa virtude.

5. Demais. – Os dons são mais perfeitos que as virtudes, pois, são dados para as auxiliar como diz Gregório. Ora, a esperança é mais perfeita que o temor, porque tem por objeto um bem, ao passo que o objeto do temor é um mal. Ora, sendo a esperança uma virtude, não podemos considerar o temor como um dom.

Mas, em contrário, a Escritura enumera o temor de Deus entre os sete dons do Espírito Santo.

SOLUÇÃO. – O temor é múltiplo, como já dissemos. Ora, o temor humano não é um dom de Deus, como diz Agostinho, pois, por esse temor, Pedro negou a Cristo. Mas é o temor de que fala a Escritura: Temei ao que pede lançar no inferno tanto a alma como o corpo.

Semelhantemente, também o temor servil não deve ser enumerado entre os sete dons do Espírito Santo, embora dele proceda. Pois, como diz Agostinho, pode coexistir com a vontade de pecar. Ora, os dons do Espírito Santo não o podem, por não existirem sem a caridade, como já dissemos.

Donde se conclui que o temor de Deus, enumerado entre os dons do Espírito Santo é o temor filial ou casto. Pois, como já dissemos, os dons do Espírito Santo são umas perfeições habituais das potências da alma, que as tornam facilmente movidas desse Espírito, assim como, as virtudes morais tornam as potências apetitivas facilmente movidas pela razão. Ora, para que um móvel seja facilmente movido por um motor, é primeiramente necessário que lhe esteja sujeito e sem repugnância; porque a repugnância entre o móvel e o motor impede o movimento. Ora, esta submissão sem repugnância o temor filial ou casto a produz, fazendo-nos reverenciar a Deus e temer separarmo-nos dele. Por onde, o temor filial tem quase o primeiro lugar, na ordem ascendente, entre os dons do Espírito Santo; mas o último, na ordem descendente, como o diz Agostinho.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ O temor filial não contraria a virtude da esperança. Pois, por ele, não tememos que venha a nos faltar o que esperamos obter pelo auxílio divino, mas tememos que, por nossa culpa, venhamos a perder esse auxílio. Por onde, o temor filial e a esperança formam um todo e se completam mutuamente.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O objeto próprio e principal do temor é o mal que procuramos evitar. E deste modo Deus não pode ser objeto do temor, como já estabelecemos. Mas é, desse modo, objeto da esperança e das outras virtudes teologais. Porque, pela virtude da esperança, confiamos no auxílio divino, não somente para alcançar qualquer bem que seja, mas, sobretudo para chegarmos à posse de Deus, como o nosso principal bem. E o mesmo se dá com as outras virtudes teologais.

RESPOSTA À TERCEIRA. – De ser o amor o objeto do temor não se segue que o temor de Deus não seja um hábito distinto da caridade, que é o amor de Deus. Pois, o amor é o princípio de todas as afeições, e contudo as nossas diversas afeições se aperfeiçoam por hábitos diversos. Entretanto, o amor realiza a essência da virtude, mais que o temor; por ter como objeto o bem, para o qual a virtude principal e essencialmente se ordena, como do sobredito resulta. Donde, a esperança é também considerada como virtude. Ora, o temor tem principalmente por objeto um mal, cuja fuga implica. Por onde, é algo menos que uma virtude teologal.

RESPOSTA À QUARTA. – Como diz a Escritura, o principio da soberba do homem é apostatar de Deus, isto é, não querer submeter-se a Deus, o que se opõe ao temor filial, pelo qual o reverenciamos. E assim, o temor exclui o princípio da soberba, por isso é nos dado para combatê-la. Mas daí não se segue seja idêntico à virtude da humildade, mas sim, que é o princípio dela. Pois, os dons do Espírito Santo são princípios das virtudes intelectuais e morais como já dissemos; mas as virtudes teologais o são princípios dos dons segundo também já estabelecemos.

Donde se deduz clara a RESPOSTA Á QUINTA OBJEÇÃO.