Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 3 – Se o desespero é o máximo dos pecados.

O terceiro discute-se assim. – Parece que o desespero não é o máximo dos pecados.

1. – Pois, pode haver desespero sem infidelidade, como já se disse. Ora, a infidelidade é o máximo dos pecados, por destruir o fundamento do edifício espiritual. Logo, o desespero não é o máximo dos pecados.

2. Demais. – Ao maior bem se opõe o maior mal, como claro está no Filósofo. Ora, a caridade é maior que a esperança, no dizer da Escritura. Logo, o ódio de Deus é maior pecado que o desespero.

3. Demais. – No pecado do desespero há só a desordenada aversão de Deus. Ora, nos outros pecados há, não só essa aversão desordenada, mas também, uma desordenada conversão. Logo, o pecado do desespero não é mais grave, mas menos grave que os outros.

Mas, em contrário – O pecado incurável é o gravíssimo, conforme a Escritura. Incurável é a lua fractura, maliqníssima a lua chaga. Ora, o pecado do desespero é incurável, segundo ainda a Escritura: a minha chaga maligna recusou ser curada. Logo, o desespero é o mais grave dos pecados.

SOLUÇÃO. – Os pecados opostos às virtudes teologais são, no seu gênero, mais graves que os outros. Pois, tendo as virtudes teologais Deus como objeto, os pecados que se lhes opõem implicam direta e principalmente aversão de Deus. Ora, a razão principal do mal e a gravidade de todo pecado mortal está em nos causarem a aversão de Deus. Pois não seria pecado mortal a conversão, embora desordenada, a um bem temporal, se não implicasse a aversão de Deus. Por onde, o pecado que, primariamente e em si mesmo, implica a aversão de Deus é o mais grave de todos os pecados mortais.

Ora, às virtudes teologais se opõem a infidelidade, o desespero e o ódio de Deus. Entre estes pecados, o ódio e a infidelidade, comparados com o desespero, são mais graves, em si mesmos considerados, isto é, por natureza da espécie própria deles. Pois, a infidelidade consiste em não crermos na verdade divina; o ódio, em a nossa vontade contrariar a mesma divina bondade; o desespero, enfim, em não esperarmos participar da bondade de Deus. Por onde, como é claro, a infidelidade e o ódio de Deus se opõem a Deus em si mesmo considerado; o desespero, porém, enquanto a sua bondade é participada por nós. Portanto, maior pecado, absolutamente falando, é não crer na verdade de Deus, ou odiá-lo, do que não esperar alcançar dele a glória.

Comparado, porém, o desespero com os outros dois pecados, relativamente a nós, então o desespero é mais perigoso. Pois, pela esperança evitamos o mal e somos levados a buscar o bem. Por onde, desaparecida ela, caímos desenfreadamente nos vícios e abandonamos todas as boas obras. Por isso, aquilo da Escritura. – Se tu perdes a esperança, descorçoado no dia da angústia, será minguada a tua fortaleza – diz a Glosa : Nada há de mais execrável que o desespero, pois a presa dele perde a constância, tanto nos trabalhos desta vida, como, o que é pior, nos combates da fé. E Isidoro diz: Perpetrar um crime é a morte da alma; mas desesperar é descer ao inferno.

Donde se deduzem claras as RESPOSTAS ÀS OBJEÇÕES.