Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se a infidelidade é pecado.

O primeiro discute-se assim. – Parece que a infidelidade não é pecado.

1. – Pois, todo pecado é contra a natureza, como claramente o diz Damasceno. Ora, a infidelidade não é contra a natureza, segundo Agostinho: é próprio à natureza de todos os homens ter tanto a fé como a caridade; mas ter a fé, bem como a caridade, é próprio da graça dos fiéis. Logo, não ter fé, o que é ser infiel, não é contra a natureza; e portanto não é pecado.

2. Demais. – Ninguém peca pelo que não pode evitar, por ser todo pecado voluntário. Ora, não está no poder do homem evitar a infidelidade, pois, só tendo fé pode evitá-la, conforme ao dito do Apóstolo: Como crerão aquele que não ouviram? E como ouvirão sem pregador? Logo, a infidelidade não é pecado.

3. Demais. –Como já se disse, sete são os vícios capitais a que todos os pecados se reduzem. Ora, a infidelidade não está contida em nenhum deles. Logo, não é pecado.

Mas, em contrário. – À virtude é contrário o vício. Ora, é a fé uma virtude, a que é contrária a infidelidade, Logo, a infidelidade é pecado.

SOLUÇÃO. – A infidelidade pode ser considerada em duplo sentido: como pura negação, chamando-se nesse caso infiel uma pessoa, só pelo fato de não ter fé; ou como contrária à fé, quando, por exemplo, a alguém repugna ouvir-lhe a doutrina, ou ainda, a despreza, conforme aquilo da Escritura: Quem deu crédito ao que nos ouviu? E é isto que constitui própria e essencialmente a infidelidade: que, neste sentido, é pecado.

Considerada, porém enquanto negação pura, como no caso dos que nunca ouviram falar nas verdades da fé, não implica essencialmente pecado, mas antes, pena, porque tal ignorância das coisas divinas é resultante do pecado do primeiro pai. Assim, os infiéis, dessa maneira, condenam-se, certo, por causa de outros pecados, que não podem, sem a fé, ser perdoados; não porém pelo pecado de infidelidade. Por isso, o Senhor diz: Se eu não viera e não lhes tivera falado, não teriam eles pecado; o que Agostinho explica como referente aquele pecado pelo qual não creram em Crido.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Não é próprio à natureza humana ter fé, mas, sim, que a mente do homem não repugne à moção interna e à pregação externa da verdade. Por onde, neste último caso, a infidelidade é contra a natureza.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A objeção colhe quando a infidelidade é tomada no sentido de simples negação.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A infidelidade, como pecado, nasce da soberba, que leva o homem a não querer submeter o seu intelecto às regras da fé e à sã inteligência dos Padres. Por isso, Gregório diz, que, da vanglória nascem as presunções da novidade. – Embora se possa dizer que, assim como as virtudes teologais não se reduzem às cardeais, mas lhes são anteriores; assim também os vícios opostos às virtudes teologais não se reduzem aos vícios capitais.