Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 3 – Se o pecado contra o Espírito Santo é irremissível.

O terceiro discute-se assim. – Parece que o pecado contra o Espírito Santo não é irremissível.

1. – Pois, diz Agostinho. De ninguém devemos desesperar, porque a paciência do Senhor pode levar à penitência. Ora, se algum pecado fosse irremissível, poderíamos desesperar de certos pecadores. Logo, o pecado contra o Espírito Santo não é irremissível.

2. Demais. – Nenhum pecado pode ser perdoado se Deus não restituir a vida espiritual à alma. Ora, não há doença que um médico onipotente não possa curar, diz a Glosa aquilo da Escritura. O que perdoa todas as luas maldades, Logo, o pecado contra o Espírito Santo não é irremissível.

3. Demais. – Pelo livre arbítrio podemos buscar tanto o bem como o mal. Ora, durante a vida, podemos abandonar a prática da virtude, pois até os anjos do céu caíram. Donde o dizer a Escritura Entre os seus anjos achou crime; quanto mais aqueles que moram em casas de lodo? Logo e pela mesma razão, podemos, depois de cometido qualquer pecado, voltar ao estado de justiça. Portanto, o pecado contra o Espírito Santo não é irremissível.

Mas, em contrário, diz a Escritura: Todo o que disser alguma palavra contra o Espírito Santo não se Lhe perdoará nem neste mundo nem no outro. E Agostinho: Tão grande é a gravidade deste pecado que exclui a humildade que nos leva à súplica.

SOLUÇÃO. – De tantos modos se considera irremissível o pecado contra o Espírito Santo, quantas as acepções em que pode ser tomado. ­ Assim, se considerarmos como pecado contra o Espírito Santo a impenitência final, então é irremissível, porque não pode de nenhum modo ser perdoado. Pois, o pecado mortal em que o homem persevera até a morte, não sendo perdoado nesta vida, pela penitência, não o será também na futura.

Nas outras duas acepções, porém, é considerado irremissível; não que não possa de nenhum modo ser perdoado, mas, porque, por natureza, não merece o perdão. E isto de dois modos. – Primeiro, quanto à pena. Pois, quem peca por ignorância ou fraqueza merece menor pena que quem peca por pura malícia, que não tem nenhuma desculpa por onde se lhe minore a pena. Semelhantemente, quem blasfema contra o Filho do homem, cuja divindade não reconhece, pode merecer uma certa desculpa, por causa da fraqueza da carne, que nele via. E, por isso, merece pena menor que quem blasfema contra a divindade mesma atribuindo ao diabo as obras do Espírito Santo; pois esse nenhuma desculpa tem para que lhe seja minorada a pena. Por isso, se diz, segundo a exposição de Crisóstomo que aos judeus não se lhes perdoou esse pecado, nem nesta vida nem na outra. Pois, nesta, sofreram, por ele, a pena que lhes infligiram os romanos; e na futura, a pena do inferno. Também Atanásio dá o exemplo dos antepassados deles que, primeiro, se opuseram a Moisés, por falta de água e de pão, o que o Senhor suportou pacientemente, pois tinham desculpa na fraqueza da carne. Mas depois pecaram mais gravemente, quase blasfemando contra o Espírito Santo, por atribuírem aos ídolos os benefícios de Deus, que os tirara do Egito, dizendo. Estes são, ó Israel, os teus deuses que te tiraram da terra do Egito. Por isso, o Senhor fez com que fossem punidos temporalmente, pois, foram quase vinte e três mil homens os que caíram mortos naquele dia. E além disso ameaçou-as da pena futura, dizendo: Eu, porém, no dia da vingança visitarei também este pecado deles.

De outro modo, podemos entender que esse pecado não merece perdão, por causa da culpa. Pois dizemos que uma doença é incurável, por natureza, quando exclui tudo o que poderia curá-la; por exemplo, quando priva da virtude da natureza ou produz a repulsa do alimento e do remédio; embora Deus possa curar tal doença. Assim também, considera-se irremissível, por natureza, o pecado contra o Espírito Santo, por excluir os meios que levam à remissão dos pecados. Mas isto não impede possa perdoá-lo e saná-lo a omnipotência e a misericórdia de Deus, que às vezes restitui a tais pecadores, quase miraculosamente, a saúde espiritual.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – De ninguém devemos desesperar, nesta vida, considerando a omnipotência e a misericórdia de Deus. Mas considerando a natureza do pecado, certos são chamados pela Escritura, filhos da infidelidade.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A objeção colhe, quanto à omnipotência de Deus e não, quanto à condição do pecado.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Pelo livre arbítrio, somos nesta vida, sempre convertíveis; contudo às vezes rejeitamos na medida em que nos é possível, os meios que poderiam converter-nos ao bem. Por onde, a esta luz, o pecado é irremissível, embora Deus possa perdoá-lo.