Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 7 – Se é a fé a primeira das virtudes.

O sétimo discute-se assim. – Parece que não é a fé a primeira das virtudes.

1 – Pois, aquilo do Evangelho – A vós outros, amigos meus, vos digo – diz a Glosa: a fortaleza é o fundamento da fé. Ora, o fundamento é anterior aquilo que funda. Logo, não é a fé a primeira das virtudes.

2. Demais. – Aquilo da Escritura – Não queiras imitar – diz a Glosa, que a esperança serve de introdução à fé. – Ora, a esperança é uma virtude como a seguir se dirá. Logo, não é a fé a primeira das virtudes.

3. Demais. – Como já se disse, o intelecto do crente se inclina a assentir às verdades da fé, por obediência a Deus. Ora, também a obediência é uma virtude. Logo, não é a fé a primeira das virtudes.

4. Demais. – Não a fé informe é o fundamento, mas a informada, como diz a Glosa a um lugar da Escritura. Ora, é a fé informada pela caridade, como já se disse. Logo, pela caridade é que a fé vem a ser o fundamento. Portanto, é a caridade mais que a fé, fundamento; pois, o fundamento é a primeira parte do edifício. Por consequência, há de ter prioridade sobre a fé.

5. Demais. – Pela ordem dos atos se intelige a dos hábitos. Ora, no ato da fé, o ato da vontade, aperfeiçoado pela caridade, precede ao do intelecto, que a fé aperfeiçoa, como causa, que precede o efeito. Logo, a caridade precede à fé e, portanto, esta não é a primeira das virtudes.

Mas, em contrário, diz o Apóstolo que é a fé a substância das causas que se devem esperar. Ora, a substância vem, por essência, em primeiro lugar. Logo, é a fé a primeira das virtudes.

SOLUÇÃO. –De dois modos pode uma coisa ser primeira que outra: por essência ou por acidente. Ora, por essência, é a fé a primeira das virtudes. Pois, sendo o fim o princípio das ações como já dissemos, hão de necessariamente as virtudes teologais, cujo objeto é o fim último, ter prioridade sobre as outras virtudes. Ora, em si mesmo, é necessário resida o fim último no intelecto, antes de estar na vontade; pois, a vontade não quer nada senão depois de apreendido pelo intelecto. Ora, está o último fim na vontade pela esperança e pela caridade, e no intelecto, pela fé. Por onde é necessariamente, é a fé a primeira de todas as virtudes, porque o conhecimento natural não pode alcançar a Deus, enquanto objeto da beatitude, para o qual tendem a esperança e a caridade.

Acidentalmente, porém, qualquer virtude pode ter prioridade sobre a fé; mas, uma causa acidental tem prioridade acidental. Ora, é próprio dessa causa remover o obstáculo, como está claro no Filósofo. E por aí, certas virtudes podem ser consideradas acidentalmente como anteriores à fé, por removerem os obstáculos à crença. Assim, a fortaleza remove o temor desordenado, que impede a fé; a humildade, por seu lado, a soberba, que leva o intelecto à recusa de submeter-se à verdade da fé. E o mesmo pode dizer-se de certas outras virtudes, embora não sejam verdadeiramente tais, senão pressuposta a fé, como se vê claramente em Agostinho.

Donde se deduz clara a RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A esperança não pode levar, universalmente, a fé. Pois, não se pode ter esperança na eterna beatitude, se não é esta crida como possível, pois o impossível não constitui objeto da esperança, segundo do sobredito se colhe. Mas pela esperança pode alguém ser levado a perseverar na fé ou a ela aderir firmemente; e neste sentido se diz que a esperança conduz à fé.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A obediência é susceptível de dupla acepção. – Às vezes implica a inclinação da vontade a cumprir os mandamentos divinos. E então, não é uma virtude especial, mas se acha geralmente incluída em todas as virtudes, porque todos os atos virtuosos se compreendem nos preceitos da lei divina, como já se disse. E neste sentido a obediência é necessária à fé. – Noutro sentido, a obediência pode ser considerada como implicando uma certa inclinação o cumprir os mandamentos, enquanto tem a natureza de débito. E então a obediência é uma virtude especial e faz parte da justiça; pois, dá o devido ao superior, obedecendo-lhe. Segue-se então, neste sentido, à fé, que manifesta ao homem que Deus é um superior a quem devemos obedecer.

RESPOSTA À QUARTA. – A essência do fundamento não somente exige tenha prioridade, mas também que seja conexo às outras partes do edifício. Pois fundamento não seria se com ele não estivessem coesas as outras partes. Ora, a conexão espiritual do edifício se realiza pela caridade, conforme a Escritura: Sobre tudo isto, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição. Logo, a fé não pode, sem a caridade, ser fundamento; mas isso não implica seja a caridade anterior à fé.

RESPOSTA À QUINTA – O ato de vontade é pré-exigido à fé; não porém o ato da vontade informado pela caridade. Pois tal ato pressupõe a fé; porque a vontade não pode tender para Deus com perfeito amor, se o intelecto não tiver fé reta relativamente a ele.