Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se nem o anjo, nem o homem, na sua condição primitiva, tinham fé.

O primeiro discute-se assim. –Parece que nem o anjo, nem o homem, na sua condição primitiva, tinham fé.

1. –Pois, como diz Hugo de S. Victor, não tendo o homem olhos contemplativos, não pode ver a Deus nem o que em Deus existe. Ora, o anjo, no estado da sua condição primitiva, antes da confirmação ou da queda, não tinha vista contemplativa, pois, via as coisas no verbo, como diz Agostinho. Semelhantemente, o primeiro homem, no estado de inocência, parece tinha os olhos abertos à contemplação, conforme Hugo de S. Victor, nas suas Sentenças. O homem, diz, no seu primitivo estado, conhecia o seu Criador, não por um conhecimento exterior alcançado só por ouvir dizer, mas antes, pelo que ministra a inspiração interior; não, ao modo por que, nesta vida, os crentes buscam pela fé, a Deus ausente, mas como, então, era visto, mais manifestamente, ela presença da contemplação. Logo, nem o homem nem o anjo tinham fé, no estado da condição primitiva.

2. Demais. –O conhecimento da fé é enigmático e obscuro, conforme a Escritura: Nós agora vemos como por um espelho, em enigmas. Ora, no estado da condição primitiva, nenhuma obscuridade havia no homem nem no anjo, porque a obscuridade é pena do pecado. Logo, a fé, no estado dessa condição, não podia existir nem no homem nem no anjo.

3. Demais. –O Apóstolo diz: a fé é pelo ouvido. Ora, como no estado primitivo da sua condição, nem o anjo nem o homem podiam ouvir nada de outrem, não havia lugar para a fé. Logo, neste estado, não tinha fé nem o homem nem o anjo.

Mas, em contrário, diz o Apóstolo: é necessário que o que se chega a Deus creia que há Deus, e que é remunerador dos que o buscam. Ora, o anjo e o homem, na sua condição primitiva, achavam-se em estado de se chegar a Deus. Logo, não tinham fé.

SOLUÇÃO. –Certos dizem, que os anjos, antes da confirmação e da queda, e os homens, antes do pecado, não tinham fé por gozarem então da contemplação clara das coisas divinas. Mas é a fé argumento das causas, que não aparecem, segundo o Apóstolo; e cremos, pela fé, o que não vemos, no dizer de Agostinho. Por onde, exclui a fé, por essência, só aquela clareza que torna aparente ou visto o objeto sobre que principalmente recai. Ora, é o objeto principal da fé a verdade primeira, cuja visão, que sucede à fé, nos torna felizes. Portanto, não tendo o anjo, antes da confirmação, nem o homem, antes do pecado, a beatitude pela qual vissem a Deus por essência, é manifesto que não tinham conhecimento tão claro que excluísse a fé, na sua essência. Portanto, o não terem fé não podia ser senão por lhes ser completamente desconhecido o objeto da mesma. Porém se o homem e o anjo foram criados no estado de pura natureza, como certos dizem, talvez se pudesse admitir que não tinham fé, nem este, antes da confirmação, nem aquele, antes do pecado. Pois, é o conhecimento da fé superior ao natural que, não só o homem, mas também o anjo tem de Deus.

Ora, já estabelecemos, na Primeira Parte, que o homem e o anjo foram criados com o dom da graça. Portanto, é necessário admitir-se que, pela graça recebida e ainda não consumada, tinham uma certa incoação da felicidade esperada. Pois esta, começa na vontade pela esperança e pela caridade e no intelecto, pela fé como já dissemos. Logo, devemos concluir, que tanto o anjo, antes da confirmação, como o homem, antes do pecado, tinham fé.

É preciso entretanto notar-se, que o objeto da fé tem um elemento quase formal, que é a verdade primeira, superior a todo conhecimento natural da criatura; e outro, material, como aquilo a que assentimos, aderindo à verdade primeira. Quanto ao primeiro destes elementos, a fé existe comumente em todos os que tem conhecimento de Deus, mas ainda não alcançaram a felicidade futura, unindo-se à verdade primeira. Quanto porém às verdades propostas para serem materialmente cridas, certos acreditam o que outros sabem claramente, mesmo no estado da vida presente como já dissemos. E assim sendo, também podemos dizer que o anjo, antes da confirmação, e o homem, antes do pecado, tiveram conhecimento claro de certos aspectos dos mistérios divinos, que agora só podemos conhecer, crendo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Embora as palavras de Hugo de S. Victor sejam magistrais e tenham a força da autoridade, podemos, contudo dizer, que a contemplação incompatível com a necessidade da fé é a da pátria, onde será a verdade sobrenatural vista por essência. Ora, esta visão não tinha o anjo, antes da confirmação, nem o homem, antes do pecado. A contemplação deles, porém, era mais alta que a nossa; pois, aproximando-se, por ela, mais de Deus, podiam conhecer mais verdades, manifestamente, sobre os divinos efeitos e os mistérios, do que podemos nós. Portanto, não existia neles fé com que buscassem a Deus ausente, como nós buscamos; pois Deus lhes era presente pelo lume da sabedoria, mais que a nós, embora nem a eles fosse de tal modo presente como o é aos bem aventurados pelo lume da glória.

RESPOSTA À SEGUNDA. –No estado da condição primitiva do homem ou do anjo não havia a obscuridade da culpa nem ao da pena. Havia porém no intelecto humano ou angélico, uma certa obscuridade natural, pela qual toda criatura é treva comparada à imensidade da luz divina. Ora, tal obscuridade basta para existir, em essência, a fé.

RESPOSTA À TERCEIRA. –No estado da condição primitiva, o homem não ouvia a ninguém que exteriormente lhe falasse, senão a Deus inspirando interiormente. Assim também os profetas ouviam, conforme aquilo da Escritura. Ouvirei o que o Senhor Deus me falar.