Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 4 – Se pode um ter maior fé que outro.

O quarto discute-se assim. – Parece que não pode um ter maior fé que outro.

1 – Pois, um hábito depende quantitativamente do seu objeto. Ora, quem tem fé crê em todas as verdades dela, porque, se não crê em alguma, perde totalmente a fé, como já se disse. Logo, parece que não pode um ter maior fé que outro.

2. Demais. –O que está no lugar supremo não é susceptível de mais nem de menos. Ora, a fé, por essência, está em supremo lugar, pois, para tê-la, deve o homem aderir à primeira verdade, acima de tudo. Logo, não é a fé susceptível de mais e de menos.

3. Demais. – A fé desempenha, no conhecimento, quanto à ordem da graça, o mesmo papel que o intelecto, faculdade dos princípios, no conhecimento natural, porque os artigos da fé são os princípios primeiros do conhecimento, na ordem da graça, como do sobredito resulta. Ora, o intelecto, faculdade dos princípios, a tem igualmente todos os homens. Logo, também a fé hão de tê-la igualmente todos os fiéis.

Mas, em contrário. –Onde quer que haja pequeno e grande há de também haver maior e menor. Ora, na fé há grande e pequeno; pois, diz o Senhor a Pedro: Homem de pouca fé, porque duvidastes? E à mulher: Ó mulher, grande é a tua fé. Logo pode a fé ser maior em um que em outro.

SOLUÇÃO. –Como já dissemos, um hábito pode quantitativamente ser considerado à dupla luz: quanto ao seu objeto e quanto à participação do sujeito. – Ora, o objeto da fé pode ser considerado sob dois aspectos: quanto à sua razão formal e quanto ao materialmente proposto para ser crido. Quanto ao seu objeto formal, ele é uno e simples, a saber, a verdade primeira, como já se disse. E assim, por este lado, a fé não se diversifica nos seus crentes, mas é especificamente a mesma em todos, como já dissemos. Ao contrário, o que é materialmente proposto para ser crido é múltiplo e susceptível, explicitamente, de mais ou menos. E sendo assim, pode um homem crer, explicitamente, em mais verdades, que outro e, portanto, ter maior fé, conforme a maior explicitação dela. – Considerada porém a fé na participação do sujeito, o mesmo pode se dar, de dois modos, porque o ato de fé procede tanto do intelecto como da vontade. como já dissemos. Portanto, pode-se dizer que um tem maior fé que outro quer por ter o intelecto maior certeza e segurança, quer por ter a vontade mais pronta, devota ou confiante.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Quem descrê pertinazmente alguma verdade de fé não tem o hábito da mesma, que tem, ao contrário, quem, não crendo em todas explicitamente, está contudo pronto a crê-las. E deste modo, quanto ao objeto, tem fé maior que outro quem crê explicitamente em mais artigos, como dissemos.

RESPOSTA À SEGUNDA. – É da essência da fé antepor a verdade primeira a todas as outras. Contudo, dos que a antepõem a tudo o mais, uns se lhe sujeitam mais certa e devotamente que outros. E por aí tem fé maior que outros.

RESPOSTA À TERCEIRA. –O intelecto dos princípios resulta da natureza humana como tal, que existe igualmente em todos. Ao passo que é a fé um dom da graça, que em todos não existe, igualmente. Logo, o caso não é o mesmo. – E, contudo conforme a maior capacidade do intelecto, um conhece mais a virtude dos princípios, que outro.