Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 2 – Se é a fé informe um dom de Deus.

O segundo discute-se assim. – Parece que a fé informe não é um dom de Deus.

1. –Pois, como diz a Escritura; as obras de Deus são perfeitas, Ora, a fé informe é imperfeita. Logo, não é obra de Deus.

2. Demais. –Assim como se chama disforme a um ato que não tem a forma devida, assim também informe se chama à fé sem a devida forma. Ora, o ato disforme do pecado não vem de Deus como já se disse. Logo, também de Deus não vem a fé informe.

3. Demais. –Deus cura totalmente a quem cura, conforme a Escritura. Se recebe um homem a circuncisão em dia de sábado, por não se violar a lei de Moisés, porque vos indignais vós de que eu em dia de sábado curasse a todo um homem? Ora, pela fé o homem se cura da infidelidade. Logo, quem quer que receba de Deus o dom da fé fica imediatamente purificado de todos os pecados. Mas, isto não se opera senão pela fé informada. Portanto, só a fé informada é dom de Deus, com exclusão da fé informe.

Mas, em contrário, uma certa Glosa diz: a fé sem a caridade é que é um dom de Deus. Ora, esta é informe. Logo, a fé informe é um dom de Deus.

SOLUÇÃO. – A informidade é uma privação. Ora, devemos atender a que a privação respeita umas vezes, à essência específica; outras, não, mas sobrevém ao ser já constituído na sua espécie própria. Assim, a privação do equilíbrio devido dos humores concerne à essência mesma específica da doença; ao contrário, a obscuridade não pertence à essência específica mesma do que é diáfano, mas lhe sobrevém. Ora, quando se determina a causa de um ser, entendemos assinalá-la relativamente à espécie própria do mesmo. Por onde, o que não pode ser considerado causa da privação também não o pode, do ser a que a privação diz respeito especificamente. Assim, não pode ser considerada causa da doença a que não o é do desiquilíbrio dos humores. Pode, contudo ser considerada causa da diafaneidade o que não o é da obscuridade, que não concerne à essência específica daquela. Ora, a informidade da fé não lhe respeita à essência específica, pois informe se chama à fé a que falta uma certa forma exterior, como já dissemos. Por onde, a causa da fé informe é a causa da fé em si mesma considerada. E essa é Deus, segundo já foi dito. Donde se conclui ser a fé informe um dom de Deus.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Embora a fé informe não tenha, absolutamente falando, a perfeição da virtude, é perfeita, contudo, de uma certa perfeição, que basta à da fé, na sua essência.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A disformidade de um ato moral diz-lhe respeito à essência específica, como já dissemos. Pois, chama-se disforme o ato privado da sua forma intrínseca, que é a proporção devida entre as circunstâncias dele. Logo, Deus não pode ser considerado causa do ato disforme. Ele, que não é causa da disformidade, embora o seja do ato como tal. – Ou, devemos dizer que a disformidade implica, não só a privação da forma devida, mas ainda, uma disposição contrária. Por onde, está a disformidade para o ato como a falsidade, para o fim. Logo, como o ato disforme, também nenhuma fé falsa vem de Deus. E assim como de Deus procede a fé informe, assim também os atos genericamente bons, embora não informados pela caridade, como frequentemente se dá com os pecadores.

RESPOSTA À TERCEIRA. –Quem recebe de Deus a fé, sem a caridade, não fica, absolutamente falando, resguardado de ser infiel, por não ficar removida a culpa da infidelidade precedente; mas o fica relativamente, de modo que se liberte desse pecado. Pois frequentemente acontece que, por ação divina, deixamos de praticar um ato pecaminoso sem contudo deixarmos a prática de outro ato dessa natureza, por sugestão da nossa própria iniquidade. E também, deste modo, Deus concede a um a fé sem lhe dar o dom da caridade; como, ainda dá a certos, sem a caridade, o dom da profecia e outros semelhantes.