Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se o temor é efeito da fé.

O primeiro discute-se assim. – Parece que o temor não é efeito da fé.

1. – Pois, o efeito não precede à causa. Ora, o temor precede à fé, no dizer da Escritura: Vós os que temeis ao Senhor, crede-o. Logo, não é o temor efeito da fé.

2. Demais. – Os contrários não podem ter a mesma causa. Ora, temor e esperança são contrários, orno se disse, pois, a fé gera a esperança, conforme uma Glosa. Logo, não é causa do temor.

3. Demais. – Um contrário não pode ser causa de outro. Ora, o objeto da fé é o bem da verdade primeira; ao passo, que o do temor é o mal, conforme se disse. E como os atos se especificam pelos seus objetos, segundo já foi estabelecido resulta que não é a fé a causa do temor.

Mas, em contrário, a Escritura: Os demônios creem e estremecem.

SOLUÇÃO. – O temor é um movimento da virtude apetitiva, como já dissemos. Ora, o princípio de todos os movimentos apetitivos é o bem ou o mal apreendido. Por onde e necessariamente será alguma apreensão o princípio do temor e de todos os movimentos apetitivos. Ora, a fé causa em nós uma apreensão de certos males penais aplicados pelo juízo divino. E desse modo é a fé causa do temor, que nos faz temer a punição de Deus; e tal temor é servil. É também a causa do temor filial, pelo qual tememos a separação de Deus, ou pelo qual evitamos compararmo-nos com Ele, pelo reverenciar, considerando-o como o bem imenso e altíssimo, do qual é péssimo o separar-se e mau querermos com Ele nos igualar. Da primeira espécie de temor porém, isto é, do servil, é a causa a fé informe; e do temor filial, que é o da segunda espécie, é a causa a fé informada que, pela caridade, leva o homem a unir-se e a submeter-se a Deus.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ O temor de Deus não pode, universalmente, preceder a fé, porque, se lhe ignorassemos de todo os prêmios ou as penas, que conhecemos pela fé, de nenhum modo o temeríamos. Mas, suposta a fé em certos artigos, por exemplo, na excelência divina, daí resulta o temor de reverência; donde se segue, ulteriormente, que o homem deve sujeitar a inteligência a Deus para crer tudo o que Ele prometeu. Por isso, o texto citado acrescenta: E não vós faltará a sua recompensa.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Os contrários podem ter a mesma causa, em pontos de vista opostos, não porém no mesmo ponto de vista. Assim, a fé gera a esperança, fazendo-nos levar em conta os prémios com que Deus retribui os justos; e, por outro lado, gera o temor, fazendo­nos levar em conta as penas que inflige aos pecadores.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O objeto primário e formal da fé é o bem que é a verdade primeira; mas, materialmente, também são propostos à fé certos males. Por exemplo, que é mau não se sujeitar a Deus ou separar-se dele; e que os pecadores sofrerão males penais infligidos por Deus. E assim, pode a fé ser causa do temor.