Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se o intelecto é um dom do Espírito Santo.

O primeiro discute-se assim. – Parece que não é o intelecto um dom do Espírito Santo.

1. – Pois, os dons gratuitos distinguem-se dos sobrenaturais, a que se acrescentam. Ora, o intelecto é um dom natural da alma, pelo qual conhecemos os princípios evidentes, como o demonstra o Filósofo. Logo, não deve ser considerado dom do Espírito Santo.

2. Demais. – As criaturas participam, ao seu modo e proporção, dos dons divinos, como está claro em Dionísio. Ora, pelo seu modo, a natureza humana não conhece intuitivamente a verdade, o que é por essência próprio do intelecto, mas discursivamente, o que é próprio da razão, conforme está claro em Dionísio. Logo, o conhecimento divino concedido aos homens deve ser considerado dom, antes, da razão que do intelecto.

3. Demais. – Na divisão das potências da alma, o intelecto se contrapõe à vontade, como claramente o diz Aristóteles. Ora, nenhum dom do Espírito Santo se chama vontade. Logo, também nenhum deve chamar-se intelecto.

Mas, em contrário, a Escritura. E descansará sobre ele o Espírito do Senhor; espírito de sabedoria e de entendimento.

SOLUÇÃO. – O nome de intelecto implica um conhecimento íntimo; pois, inteligir significa quase ler interiormente. E isto aparecerá claro a quem considerar na diferença entre intelecto e sentido, Pois, o conhecimento sensível tem por objeto as qualidades exteriores sensíveis; ao contrário, o conhecimento intelectual penetra até a essência das coisas, porquanto o seu objeto é a quididade das mesma como diz Aristóteles. Ora, por muitos gêneros se distribui a constituição íntima das coisas, que o conhecimento humano deve penetrar até o que tem de mais intrínseco. Assim, sob os acidentes se oculta a natureza substancial dos seres; nas palavras se ocultam as suas significações; nas semelhanças e nas figuras, a verdade figurada. Também o inteligível é, de certo modo, interno, em relação ao sensível, apreendido externamente; e as causas compreendem os efeitos, e reciprocamente. Por onde, podemos considerar o intelecto como concernente a tudo isso. Mas, começando o conhecimento do homem pelos sentidos, como pelo que é quase exterior, é manifesto que, quanto mais forte for a luz do intelecto, tanto mais profunda será a sua penetração. Ora, o lume do nosso intelecto, sendo de virtude finita, tem um grau limitado de penetração. Por isso o homem necessita de um lume sobrenatural, para chegar a certos conhecimentos que não pode alcançar pelo só lume natural. E esse lume sobrenatural dado ao homem chama-se dom do intelecto.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Pelo lume natural infuso em nós conhecemos somente certos princípios gerais, naturalmente conhecidos. Mas, como o homem se ordena a uma felicidade sobrenatural, segundo já se disse, é forçoso, alcance certas noções mais elevadas. E para isso é necessário o dom do intelecto.

RESPOSTA À SEGUNDA. – O discurso da razão sempre começa pelo intelecto e no intelecto termina; pois, raciocinamos partindo de certos objetos inteligidos. E o discurso da razão se completa quando chegamos a inteligir o que, antes, nos era desconhecido. Portanto, o nosso raciocínio se baseia numa intelecção precedente. Ora, o dom da graça não procede do lume natural, mas se lhe acrescenta, quase para o aperfeiçoar. Por onde, a esse acréscimo não se chama razão, mas antes, intelecto, pois, o lume acrescentado está para o que conhecemos sobrenaturalmente, como o lume natural ao que primordialmente conhecemos.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A vontade designa simplesmente um apetite movido, sem determinação de nenhuma excelência. Ao passo que o intelecto designa uma certa excelência do conhecimento, de penetrar até ao íntimo. Por onde, o dom sobrenatural recebe, antes, a denominação de intelecto, que a de vontade.