Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 2 – Se temos o dom do intelecto simultaneamente com o da fé.

O segundo discute-se assim. – Parece que o dom do intelecto não pode ser possuído simultaneamente com o da fé.

1. – Pois, como diz Agostinho: O que é entendido é delimitado pela compreensão de quem entende. Ora, não cremos o que compreendemos, conforme àquilo do Apóstolo. Não que a tenha eu já alcançado, ou que seja já perfeito. Logo, fé e intelecto não podem coexistir no mesmo sujeito.

2. Demais. – Tudo o que é inteligido é visto pelo intelecto. Ora, é a fé relativa às coisas que não aparecem, como já se disse. Logo, a fé não pode coexistir num mesmo sujeito com o intelecto.

3. Demais. – O intelecto é susceptível de maior certeza que a ciência. Ora, ciência e fé não podem coexistir num mesmo sujeito como já se disse. Logo, com maior razão, o intelecto e a fé.

Mas, em contrário, Gregório diz, que o intelecto, pelas coisas ouvidas, ilumina a mente. Ora, quem tem fé pode ter a mente iluminada relativamente a essas coisas; donde o dizer a Escritura: o Senhor lhe abriu o entendimento aos discípulos, para alcançarem o sentido das Escrituras. Logo, o intelecto pode coexistir com a fé.

SOLUÇÃO. – A questão vertente exige dupla distinção: uma relativa à fé e a outra, ao intelecto. – Quanto à fé, devemos distinguir o que lhe pertence essencial e diretamente e excede a razão natural – como a Trindade e a unidade divinas e a encarnação do Filho de Deus – do que lhe pertence por lhe estar ordenado, de certo modo, como tudo o que contém a divina Escritura. – No concernente ao intelecto, devemos distinguir a dupla acepção em que podemos tomar a palavra inteligir. De um modo, em sentido perfeito, isto é, quando chegamos a conhecer a essência da coisa inteligida e a verdade da proposição inteligida, como em si mesma é. E deste modo não podemos inteligir, por força da fé, o que diretamente a ela pertence. Mas o podemos quanto a certas coisas à fé ordenadas. De outro modo, podemos inteligir uma coisa imperfeitamente, isto é, quando não conhecemos o que é ou de que modo é a essência mesma dela, ou a verdade da proposição; contudo, conhecemos que as aparências externas não contrariam a verdade. Isto é, quando inteligimos que, por causa das aparências externas, não precisamos nos afastar das verdades da fé. E deste modo nada impede intelijamos, enquanto temos fé, também o que essencialmente lhe pertence.

E daqui se DEDUZEM CLARAS AS RESPOSTAS ÀS OBJEÇÕES. – Pois, as primeiras três objeções colhem, no sentido em que inteligimos perfeitamente. E a última procede, quanto ao intelecto das coisas ordenadas à fé.