Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 4 – Se o dom do intelecto é infuso em todos os que tem a graça.

O quarto discute-se assim. – Parece que o dom do intelecto não é infuso em todos os que tem a graça.

1. – Pois, como diz Gregório, o dom do intelecto é dado contra o embotamento da mente. Ora, muitos dos que tem a graça ainda padecem desse embotamento. Logo, nem todos os que tem a graça tem o dom do intelecto.

2. Demais. – Entre as coisas que dizem respeito ao conhecimento, só é necessária para a salvação a fé, porque como diz a Escritura, Cristo habita pela fé nos vossos corações. Ora, nem todos os que tem fé tem o dom do intelecto; antes, os que creem devem orar para que entendam, como diz Agostinho. Logo, o dom do intelecto não é necessário para a salvação, e portanto não o tem todos os que estão em graça.

3. Demais. – O que é comum a todos os que tem a graça nunca lhes pode faltar. Ora, a graça do intelecto, e de outros dons, perdemo-la às vezes utilmente; pois às vezes a alma, que compreende coisas sublimes, se eleva pela soberba e, por isso, fica embotada gravemente para atingir causas ínfimas e vis, no dizer de Gregório. Logo, o dom do intelecto não o tem todos os que tem a graça.

Mas, em contrário, a Escritura: Não souberam nem entenderam, andam em trevas. Ora, ninguém, que tenha a graça, anda nas trevas, conforme àquilo do Evangelho: O que me segue não anda em trevas. Logo, ninguém, que tenha a graça, carece do dom do intelecto.

SOLUÇÃO. – Todos os que tem a graça hão de necessariamente ter a retidão da vontade; pois que, pela graça, prepara-se a vontade do homem para o bem, como diz Agostinho. Ora, a vontade não pode ordenar-se retamente para o bem, sem que nela preexista algum conhecimento da verdade, pois o objeto da vontade é o bem conhecido, como diz Aristóteles, Assim como, pois, pelo dom da caridade, o Espírito Santo ordena a vontade do homem a mover-se diretamente para um certo bem sobrenatural, assim, pelo dom do intelecto ilumina-lhe a mente para conhecer uma certa verdade sobrenatural a que deve tender a vontade reta. Por onde, assim como o dom da caridade existe em todos os que tem a graça santificante, assim também o dom do intelecto.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Certos dos que tem a graça santificante podem sofrer embotamento relativo ao que não é necessário à salvação. Mas, no concernente ao necessário, são suficientemente instruídos pelo Espírito Santo, conforme àquilo da Escritura. A sua unção vos ensina em todas as causas.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Embora nem todos os que tem a fé entendam plenamente o que se lhes propõe para crerem, entendem contudo que em tais verdades devem crer e em nada devem desviar-se delas.

RESPOSTA À TERCEIRA. – O dom do intelecto nunca falta aos santos, relativamente ao necessário à salvação. Mas falta às vezes em relação a outras coisas, de modo que não podem penetrar perfeitamente tudo, pelo intelecto, para que se livrem da contaminação da soberba.