Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se a ciência é um dom.

O primeiro discute-se assim. – Parece que a ciência não é um dom.

1. – Pois, os dons do Espírito Santo excedem às faculdades naturais. Ora, a ciência implica em resultado da razão natural; pois, como diz o Filósofo, a demonstração é um silogismo que produz a ciência. Logo, a ciência não é um dom do Espírito Santo.

2. Demais. – Os dons do Espírito Santo são comuns a todos os santos, como se disse. Ora, Agostinho diz: muitos fiéis, não eminentes pela ciência, são no pela fé. Logo, a ciência não é um dom.

3. Demais. – O dom é mais perfeito que a virtude, como se disse antes. Logo, um dom basta à perfeição de uma virtude. Ora, à virtude da fé cor responde o dom do intelecto como já se disse. Logo, não lhe corresponde o dom da ciência. Nem se vê a que outra virtude corresponda. Logo, sendo os dons perfeições das virtudes, segundo ficou dito, resulta que a ciência não é um dom.

Mas, em contrário, a Escritura, a considera como um dos sete dons.

SOLUÇÃO. – A graça é mais perfeita que a natureza. Por onde, não pode ser deficiente quando o homem pode aperfeiçoar-se pela natureza. Ora, quando ele assente pela razão natural e segundo o intelecto a alguma verdade, por essa verdade aperfeiçoa-se, de duplo modo. Primeiro, pela apreender; segundo, porque tem por ela um juízo certo. Por isso duas condições se exigem para o intelecto humano assentir perfeitamente à verdade da fé. Uma, compreender bem o objeto proposto, o que pertence ao dom do intelecto, como já se disse. Outra, fazer, do objeto proposto, juízo certo e reto, discernindo o que deve crer, do que não o deve. E para tal é necessário o dom da ciência.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – ­ Os diversos seres, segundo a diversidade das suas condições, tem certezas diversas no conhecimento. Assim, o homem julga com certeza da verdade pelo discurso da razão; e por isso a ciência humana é adquirida pela razão demonstrativa. Mas Deus julga com certeza da verdade por simples intuição, sem nenhum discurso, como dissemos na Primeira Parte. Por isso a ciência divina não é discursiva ou raciocinativa, mas absoluta e simples. E a ela é semelhante a ciência considerada como dom do Espírito Santo, por ser uma semelhança participada do mesmo.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Sobre o objeto da fé podemos ter duas espécies de ciência. ­ Uma pela qual sabemos o que devemos crer, discernindo-o do que não o devemos. E neste sentido a ciência é um dom e a tem todos os santos. – Outra é a ciência sobre o objeto da fé, pela qual, sabemos não só o que devemos crer, mas também como manifestar a fé, levar outros a crerem e refutar os adversários. E essa ciência é considerada parte das graças gratuitas, dadas, não a todos, mas só a certos. Por isso, Agostinho acrescenta às palavras citadas: Uma causa é saber somente o que o homem deve crer; outra, como, com isso mesmo que crê, socorra aos que tem fé e a defenda contra os ímpios.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Os dons são mais perfeitos que as virtudes morais e intelectuais. Mas não mais que as virtudes teologais: antes, todos os dons se ordenam, como a fim, à perfeição das virtudes teologais. Logo, não há incongruência em dons diversos se ordenarem a uma mesma virtude teologal.