Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 5 – Se a coragem consiste propriamente em arrostar o perigo de morte, na guerra.

O quinto discute–se assim. – Parece que a coragem não consiste propriamente em arrastar o perigo de morte, na guerra.

1. – Pois, os mártires são sobretudo louvados pela sua coragem. Ora, eles não são tomados em matéria de guerra. Logo, a coragem não consiste propriamente em arrostar o perigo de morte, na guerra.

2. Demais. – Ambrósio diz, que a coragem tem lugar na guerra e na vida doméstica. E Túlio também diz: A maior parte pensa que os deveres da guerra são maiores e mais difíceis que os da cidade, mas esta opinião não é exata. Pois, se quisermos julgar esta matéria com verdade, veremos que há deveres urbanos maiores e mais elevados que os da guerra. Ora, a coragem versa sobre o que é maior. Logo, a coragem não consiste propriamente em arrostarmos o perigo da morte, na guerra.

3. Demais. – A guerra tem por fim conservar a paz temporal da república: pois, como diz Agostinho, a guerra é feita com o fim de se alcançar a paz. Ora, parece que ninguém deve expor–se ao perigo de morte para conservar a paz temporal da república, porque esta paz é a ocasião de muitas desordens morais. Logo, a virtude da coragem não deve arrostar só os perigos da guerra.

Mas, em contrário, diz o Filósofo, que a coragem por excelência é a que arrosta os perigos da morte, na guerra.

SOLUÇÃO. – Como dissemos, a coragem fortifica a nossa alma contra os perigos máximos, que são os da morte. Ora, como a força da virtude é a que por natureza, nos faz tender sempre para o bem, resulta daí consequentemente que não devemos fugir ao perigo da morte se é a condição de alcançarmos algum bem. Mas, os perigos de morte provenientes da doença, de uma tempestade no mar, da incursão de ladrões e de outras causas semelhantes, não ameaçam diretamente a ninguém por buscar algum bem. Ao contrário os perigos da morte, na guerra, ameaçam–nos diretamente, por isso mesmo que buscamos um bem, a saber, a defesa do bem comum numa guerra justa. Ora, uma guerra pode ser justa de dois modos. De modo geral, como quando se combate num exército. E de modo particular; por exemplo, quando um juiz ou mesmo um particular não deixa de julgar com justiça por temor de morte iminente ou de qualquer perigo, mesmo sendo mortífero. Por onde, é próprio da coragem dar–nos a fortaleza de alma para arrostarmos os perigos de morte, não só os que nos ameaçam numa guerra geral, mas também, nos que nos ameaçam, atacando–nos particularmente, a que não se pode dar o nome geral de guerra. E, assim sendo, devemos conceder que a coragem tem propriamente por objeto os perigos de morte, na guerra.

Mas, também, nos perigos de qualquer outra morte, o forte porta–se como deve. Sobretudo porque podemos afrontar, por virtude, o perigo de qualquer morte, por exemplo, quando não evitamos assistir a um amigo doente por temor de uma infecção mortal; ou quando não deixamos de nos pôr a caminho, para fazer alguma obra pia, por temer um naufrágio ou ladrões.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Os mártires sustentam os sofrimentos pessoais que lhes são infligidos, por amor do sumo bem que é Deus. Por isso a coragem deles é sobretudo a louvada. Nem difere do género de coragem necessária na guerra. Por isso o Apóstolo diz que foram fortes na guerra.

RESPOSTA À SEGUNDA. – As causas domésticas ou urbanas distinguem–se das bélicas, no sentido de guerra em comum. Mas, também na vida doméstica ou na urbana podemos sofrer perigos iminentes de morte, provenientes de certos adversários; o que os constitui, de certo modo, em guerras particulares. Por onde, também nesses casos, pode haver, propriamente falando, lugar para a coragem.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A paz da república é em si mesma boa. Nem se torna mal, porque certos usam mal dela; pois, há muitos outros que dela usam bem. E por ela se evitam muito piores males – como o homicídio, o sacrilégio, do que os ocasionados por ela, e que concernem sobretudo aos vícios da carne.