Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 4 – Se a magnificência faz parte da coragem.

O quarto discute–se assim. – Parece que a magnificência não faz parte da coragem.

1. – Pois, a magnificência tem a mesma matéria que a liberalidade, como se disse. Ora, a liberalidade não faz parte da coragem mas da justiça. Logo, a magnificência não faz parte da coragem.

2. Demais. – A coragem tem como matéria os temores e as audácias. Ora, parece que a magnificência de nenhum modo concerne ao temor, mas só, aos gastos, que são atos determinados. Logo, a magnificência parece pertencer antes à justiça, que regula os nossos atos, que à coragem.

3. Demais. – O Filósofo diz que o magnífico é comparável ao que sabe. Ora, a ciência convém antes com a prudência do que com a coragem. Logo, a magnificência não deve ser considerada parte da coragem.

Mas, em contrário, Túlio, Macróbio e Andrônico consideram a magnificência parte da coragem.

SOLUÇÃO. – A magnificência, como virtude especial, não pode ser considerada parte subjetiva da coragem, porque não tem a matéria idêntica à desta; mas, é considerada parte dela enquanto lhe está anexa, como virtude secundária à principal. Ora, para uma virtude ser anexa a outra como à principal, duas condições se requerem: primeiro, que a secundária convenha com a principal; segundo, que de certo modo seja excedida por ela. Ora, a magnificência convém com a coragem em que, como esta, tende para um bem árduo e difícil; e por isso pertence também, como a coragem, ao irascível. Mas, a magnificência difere da coragem porque, a dificuldade do árduo, que visa a coragem, resulta de um perigo iminente à pessoa; ao passo que a dificuldade do bem árduo, para o qual tende a magnificência, tem a sua dificuldade no dispêndio de bens, o que é muito menos que o perigo pessoal. Logo, a magnificência deve ser considerada parte da coragem.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ A justiça regula os nossos atos, em si mesmos, enquanto incluem a noção de débito. Ao passo que a liberalidade e a magnificência consideram o ato de gastar relativamente às paixões da alma. Mas, diversamente. Pois, o liberal considera os gastos relativamente ao amor e a cobiça do dinheiro, que são paixões do concupiscível; que porém não o impedem de dar e fazer gastos; e, por isso, a liberalidade pertence ao concupiscível. Ao passo que a magnificência considera os gastos relativamente à esperança, referindo–se a um bem árduo; não em sentido absoluto, como a magnanimidade, mas, na matéria determinada dos gastos. Por onde, a magnificência pertence ao irascível, como a magnanimidade.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A magnificência, embora não tenha matéria idêntica à coragem, com esta convém entretanto quanto à condição da matéria. Pois, tende a um bem árduo, concernente aos gastos, como a coragem, a um bem árduo, concernente aos temores.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A magnificência se serve da arte em ordem a um grande fim, como se disse. Ora, a arte reside na razão. Portanto, ao magnífico pertence usar bem da sua razão, atendendo à proporção entre as despesas e a obra a realizar. E isto é necessário, sobretudo em razão da grandeza tanto das despesas como da obra a fazer; pois, se não empregar uma consideração diligente, correria o perigo iminente de causar grande dano.