Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se a gratidão é uma virtude especial distinta das outras.

O primeiro discute–se assim. – Parece que não é a gratidão uma virtude especial distinta das outras.

1. – Pois, os maiores benefícios nós os recebemos de Deus e dos pais. Ora, honramos a Deus pela virtude ele religião; e aos pais, pela da piedade filial. Logo, não é o reconhecimento ou a gratidão uma virtude distinta das outras.

2. Demais, – A retribuição proporcional é ordenada pela virtude comutativa, corno está claro no Filósofo. Ora, fazem–se graças para se receber retribuição, como, diz no mesmo lugar. Logo, retribuir as graças, pela virtude de gratidão, é um ato de justiça. Portanto, não é a gratidão uma virtude especial distinta das outras.

3. Demais. – Dar compensações é necessário, para conservar a amizade, como está claro no Filósofo. Ora, a amizade está implicada em todas as virtudes, que nos fazem amar os homens. Logo, o reconhecimento ou gratidão, que nos manda pagar os benefícios, não é uma virtude, especial.

Mas, em contrário, Túlio considera a gratidão como parte especial da justiça.

SOLUÇÃO. – A obrigação de pagar um débito se diversifica conforme as causas diversas pelas quais devemos; mas de modo que sempre o menos esteja contido no mais. Ora, Deus, sendo o princípio primeiro de todos os nossos bens, é a causa primária e principal de devermos. Causa secundária são os pais, princípio próprio da geração e da educação. Em terceiro lugar, vem a pessoa constituída em dignidade, de quem procedem benefícios gerais. E por fim, em quarto lugar, o benfeitor de quem recebemos privadamente algum benefício particular, pelo qual lhe ficamos particularmente obrigados, Ora, nem tudo o que devemos a Deus, aos pais ou a uma pessoa constituída em dignidade, o devemos também a um benfeitor, de quem recebemos algum benefício particular. Por onde, depois da religião, pela qual prestamos a Deus o culto devido; da piedade filial, pela qual honramos os nossos pais; e do respeito, pelo qual honramos as pessoas constituídas em dignidade, vem o reconhecimento ou a gratidão, pela qual retribuímos as graças recebida dos benfeitores. E ela se distingue das outras virtudes referidas, assim como tudo o que, vem depois se distingue do que vem antes, por inferioridade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Assim como a religião é Uma piedade sobre excelente, assim também é um reconhecimento ou gratidão excelente. Por isso, render graças a Deus é um ato considerado como pertinente à religião.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A justiça comutativa exige a retribuição proporcional quando se trata de um débito legal; por exemplo, se, se faz o contrato de pagar tanto por tanto. Mas, a retribuição ordenada pela virtude do reconhecimento ou gratidão é fundada num dever de honestidade e a fazemos espontaneamente. Por isso, a gratidão é menos grata quando coagida, como diz Séneca.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Estando a verdadeira amizade fundada na virtude, tudo o que no amigo contrariar à virtude é obstáculo à amizade; e a desperta tudo o que tiver de virtuoso. E sendo assim, a amizade se conserva pela retribuição dos benefícios, embora essa retribuição pertença especialmente à virtude da gratidão.