Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se a piedade é um dom.

O primeiro discute–se assim. – Parece que a piedade não é um dom.

1. – Pois, os dons diferem das virtudes, como já se estabeleceu. Ora, conforme se disse, a piedade é uma virtude. Logo, a piedade não é um dom.

2. Demais. – Os dons são mais excelentes que as virtudes, sobretudo as morais, como se demonstrou. Ora, das partes da justiça, a religião é mais importante que a piedade. Portanto, se alguma parte da justiça deve ser considerada um dom, parece que deveria ser antes, a religião, que a piedade.

3. Demais. – Os dons e os seus atos perduram na pátria, corno se demonstrou. Ora, um ato de piedade não pode perdurar nela; pois, como diz Gregório, a piedade do coração enche de obras as vísceras da misericórdia: e portanto não existirá na pátria, onde não há nenhuma miséria, Logo, a piedade não é um dom.

Mas, em contrário, Isaías a considera como um dom.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos os dons do Espírito Santo são certas disposições habituais da alma, que fazem com que ela se deixe facilmente mover por ele. Ora, entre outros motivos, o Espírito Santo nos move a fim de despertar em nós um afeto filial para com Deus, conforme às palavras do Apóstolo: Recebestes o espírito de adoção de filhos segundo o qual chamamos dizendo: Pai, Pai. E como à piedade propriamente pertence prestar reverência e culto aos pais, ela é, por consequência, um dom do Espírito Santo pelo qual prestamos culto e reverência a Deus, como Pai, por inspiração do Espírito Santo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A piedade pela qual prestamos reverência e culto aos pais carnais é uma virtude; mas a piedade, como dom, os presta a Deus, como Pai.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Prestar culto a Deus como Criador, o que faz a religião, é mais excelente do que prestá–la ao pai carnal, o que faz a piedade, que é uma virtude. Mas, prestar culto a Deus, como Pai, é ainda mais excelente do que prestar–lho como a Deus, Criador e Senhor. Por onde, a religião é superior à virtude da piedade; mas, a piedade, como dom, é superior à religião.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Assim como pela piedade, enquanto virtude, prestamos reverência e culto, não só ao pai carnal, mas também a todos os próximos pelo sangue, enquanto chegados ao pai, assim também a piedade, enquanto dom, não só presta reverência e culto a Deus, mas ainda a todos os homens, enquanto filhos de Deus. E por isso, a ela pertence honrar os santos; não contradizer à Escritura, entendida ou não, somos diz Agostinho. E também ela, por consequência, socorre aos – caídos em miséria. E embora a prática desse ato não seja possível na pátria, sobretudo depois do dia de juízo, haverá porém lugar para a ato principal da’ piedade, que é reverenciar a Deus com afeto filial, o que então sobretudo se fará, conforme o diz a Escritura: Ei–los aí como tem sido contados entre os filhos de Deus. Também os Santos hão se de honrar mutuamente, então. Ao passo que agora, antes do dia de juízo, os santos se compadecem também daqueles que vivem na miséria da vida presente.