Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 2 – Se a justiça é sempre relativa a outrem.

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O segundo discute-se assim. – Parece que a justiça nem sempre é relativa a outrem.

1. – Pois, diz o Apóstolo, que a justiça de Deus é infundida pela fé de Jesus Cristo. Ora, a fé não supõe relação entre um homem e outro. Logo, nem a justiça.

2. Demais. – Segundo Agostinho, à justiça pertence por servir a Deus, governar tudo o que está sujeito ao homem. Ora, o apetite sensitivo está sujeito ao homem, como se vê na Escritura, onde diz: A tua concupiscência estar-te-á -sujeita, isto é, a do pecado, e tu dominarás sobre ela. Logo, à justiça pertence fazermos dominar o nosso próprio apetite. E, então, haverá justiça de nós para nós mesmos.

3. Demais. – A justiça de Deus é eterna. Ora, nada há de coeterno com Deus. Logo, não é da natureza da justiça ser relativa a outrem.

4. Demais. – Assim como as ações relativas a outrem, assim também as que dizem respeito a nós mesmos devem ser retificadas. Ora, a justiça retifica as seções, conforme à Escritura: A justiça do simples fará feliz o seu caminho. Logo, diz respeito, não só às nossas relações com outrem, mas também às conosco mesmo.

Mas, em contrário, diz Túlio, que a justiça abrange, por natureza, a sociedade dos homens entre si e a comunidade de vida. Ora, isto implica relações com outrem. Logo, a justiça diz respeito só ao que é relativo a outrem.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos o nome de justiça, implicando a igualdade, está em a natureza da justiça ser relativa a outrem; pois, nada é igual a si mesmo, mas, a outrem. E como o próprio da justiça é retificar os atos humanos, segundo dissemos, é necessário que essa relação com outrem, que a justiça exige, diga respeito a agentes que podem agir diversamente. Ora, os atos pertencem o suposto e ao ser total e não, propriamente fazendo, às partes e às formas ou potências. Assim, não dizemos, com propriedade – pois, só por semelhança poderíamos dizê-lo – que as mãos ferem, mas, o homem, por meio delas; nem, que o calor aquece, mas, o fogo, pelo calor. Por onde; a justiça propriamente dita exige diversidade de supostos e, portanto, não pode ser senão de um homem para com outro. Mas, por semelhança, admitimos, num mesmo homem, diversos princípios ativos, como se fossem agentes diversos; assim, a razão, o irascível e o concupiscível. Por onde, metaforicamente, dizemos que há justiça, num mesmo homem, quando a razão governa o irascível e o concupiscível e quando estas potências obedecem à razão. E, universalmente, quando a cada parte do homem é atribuído o que lhe convém. Por isso, diz o Filósofo, que essa justiça é chamada metafórica.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ A justiça, que a fé produz em nós é a que justifica o ímpio, e consiste na ordem devida das partes da alma, como dissemos, quando tratamos da justificação do ímpio. Ora, isto pertence à justiça assim chamada por metáfora, que pode existir mesmo em quem vive uma vida solitária.

Donde se deduz clara a RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A justiça de Deus é abeterno, fundada numa vontade e num propósito eternos; e nisto consiste principalmente a justiça. Embora não seja eterna no seu efeito, pois, nada é coeterno com Deus.

RESPOSTA À QUARTA. – Os atos que dizem respeito ao homem para consigo mesmo retificam­se suficientemente uma vez retificadas as paixões, pelas outras virtudes morais. Mas, as ações relativas a outrem precisam de uma retificação especial, não somente relativa ao agente, mas também aquele a quem se referem. Por onde, a elas diz respeito uma virtude especial, que é a justiça.