Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 1 – Se a contumélia consiste em palavras.

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O primeiro discute-se assim. – Parece que a contumélia não consiste em palavras.

1. – Pois, a contumélia, sendo uma espécie de injustiça, implica num dano feito ao próximo. Ora, parece que palavras não causam nenhum dano aos bens nem à pessoa do próximo. Logo, a contumélia não consiste em palavras.

2. Demais. – Parece que a contumélia importa numa certa desonra. Ora, uma pessoa pode ser desonrada ou vituperada mais por atos do que por palavras. Logo, parece que a contumélia consiste mais em atos que em palavras.

3. Demais. – A desonra causada por palavras chama-se convício ou impropério. Ora, parece que a contumélia difere do convício ou impropério. Logo, a contumélia não consiste em palavras.

Mas, em contrário. – Pelos ouvidos não percebemos senão a palavra. Ora, a contumélia os ouvidos a percebem, segundo aquilo da Escritura. Ouvi as afrontas ao redor. Logo, a contumélia consiste em palavras.

SOLUÇÃO. – A contumélia importa na desonra de outrem. O que pode dar-se de dois modos. – Como a honra é resultante de uma certa excelência, uma pessoa desonra a outra, de um modo, privando-a da excelência em virtude da qual era honrada. O que se dá pelos pecados de obras, de que já se tratou. – De outro modo, quando alguém traz ao conhecimento de outra pessoa e de terceiros o que é contra a honra dessa pessoa. O que constitui propriamente a contumélia, e se manifesta por certos sinais. Mas, como diz Agostinho: todos os sinais, comparados às palavras, são pouquíssimos; pois, entre os homens, as palavras obtiveram a preeminência no significar quaisquer concepções do nosso espírito. Por onde, a contumélia, propriamente falando, consiste em palavras. Por isso diz Isidoro, que contumelioso é chamado quem esta sempre pronto a dizer palavras injuriosas e como que cheio delas. Contudo, como determinados atos tem a mesma força das palavras para exprimir determinadas significações, daí resulta que a contumélia, em sentido amplo, também se diz dos atos. Donde, aquilo do Apóstolo os contumeliosos, os soberbos – o comentário da Glosa: São contumeliosos os que por palavras ou obras assacam contra os outros contumélias e injúrias.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ As palavras, na sua essência, isto é, enquanto determinados sons que se ouvem, não causam nenhum dano a ninguém, salvo ferindo-nos os ouvidos, como quando falamos demasiado alto. Mas, como sinais que nos trazem algo ao conhecimento, podem causar muitos danos. Entre esses está o que nos danifica lesando-nos em nossa honra ou na reverência que merecemos por parte dos nossos semelhantes. Por onde, maior será a contumélia se alguém revelar os nossos defeitos em presença de muitos. Mas, ainda que só a nós nô-los lance em rosto, pode haver contumélia, por faltar injustamente com o respeito que nos é devido.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Uma pessoa desonra por atos a outra na medida em que esses atos fazem ou significam o que é contra a honra dessa outra. Ora, se fazem tal, não constituem contumélia, mas são outras tantas espécies de injustiça, de que já tratamos. Se apenas significam, então constituem contumélia, por terem a força das palavras, no significar.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Como a contumélia, o convício e o impropério consistem em palavras; porque tanto aquela como estes manifestam um defeito de outrem, em detrimento da sua honra. Ora, esse defeito pode ser tríplice. – Ou é um defeito de culpa, expresso pelas palavras contumeliosas. ­ Ou um defeito ao mesmo tempo de culpa e de pena, expresso pelo convício, do qual se costuma dizer que é o vício não só da alma mas também do corpo. Assim, quem disser injuriosamente a outrem que é cego, dirige-lhe um convício mas não uma contumélia; mas se lhe chamar ladrão, assaca-lhe não somente um convício, mas também uma contumélia. – Outras vezes porém uma pessoa lança em rosto a outra o defeito da sua pequenês ou da sua indigência, que também fere a honra devida a uma certa excelência. E isto é o que significa o vocábulo impropério, que consiste propriamente em fazermos despertar, injuriosamente, na memória de outrem, o auxílio que lhe prestamos quando sofria necessidade. Donde o dito da Escritura: Ele dará pouco e lançá-lo-á muitas vezes em rosto. Contudo, uma dessas expressões se toma às vezes pela outra.