Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 3 – Se devemos suportar as contumélias proferidas contra nós.

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O terceiro discute-se assim. – Parece que não devemos suportar as contumélias proferidas contra nós.

1. – Pois, suportando as contumélias proferidas contra nós, damos incremento à audácia de quem as profere. Ora, não devemos fazer tal. Logo, não devemos suportar as contumêlias proferidas contra nós, mas, antes revidá-las.

2. Demais. – Devemos mais amar a nós mesmos que aos outros. Ora, não devemos tolerar que ninguém injurie a outrem; donde o dizer a Escritura: Aquele que impõe silêncio a um insensato apazigua as contendas. Logo, também não devemos tolerar as contumélias contra nós assacadas.

3. Demais. – A ninguém é lícito vingar-se a si mesmo, conforme aquilo da Escritura: A mim me pertence a vingança e eu retribuirei. Ora, quem não resiste às contumélias se vinga, segundo Crisóstomo. e queres vingar-te, silencia, e darás um terrível castigo a quem te ofendeu. Logo, não devemos, silenciando, suportar palavras contumeliosas, mas, antes, respondê-las.

Mas, em contrário, a Escritura. Os que me procuravam males falavam coisas vãs. E a seguir: Mas eu como um surdo não ouvia e como um mudo que não abre a sua boca.

SOLUÇÃO. – A paciência é necessária para suportar tanto o que é feito como o que é dito contra nós. Mas, os preceitos que nos mandam suportar com paciência o que é feito contra nós visam a preparação da nossa alma, como explica Agostinho, expondo aquele preceito do Senhor, se alguém te ferir numa face oferece-lhe também a outra. De modo que estejamos preparados a fazê-lo, sendo necessário. Não estamos obrigados porém a fazê-lo atualmente, pois nem o próprio Senhor o praticou, senão que, tendo recebido um tapa, disse: Porque me feres? Como se lê no Evangelho. E o mesmo também devemos entender a respeito das palavras contumeliosas proferidas contra nós. Devemos, contudo trazer a alma preparada para suportá-las se for necessário. Mas às vezes é necessário repelir a contumélia proferida contra nós sobretudo por duas razões. Primeiro, para o bem do que nô-la atirou, isto é, para lhe reprimir a audácia e para que não mais a repita, conforme aquilo da Escritura. Responde ao louco segundo a sua loucura para que ele não fique entendendo que é sábio. Segundo, para o bem de muitos, cujo aperfeiçoamento fica impedido por tais contumélias. Por isso, diz Gregório: Aqueles, cuja vida está posta como exemplo a ser imitado, devem, podendo, refreiar as palavras dos que os detraem; afim de não deixarem de lhes ouvir a pregação os que poderiam fazê-lo e, permanecendo nos seus maus costumes, não desprezarem o bem viver.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Devemos reprimir moderadamente a audácia de quem nos lança em rosto contumélias, por um dever de caridade e não por cobiçar da honra de que fomos privados. Por isso, diz a Escritura. Não respondas ao louco segundo a sua loucura, por não vires a ser seu semelhante.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Quando reprimimos as contumélias sofridas por outrem, não é por temer, levados da cobiçar vermo-nos privados da nossa honra, como é o caso quando repelimos as contumélias que sofremos. Mas, no primeiro caso assim procedemos levados antes pelo afeto da caridade.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Seria vindicta calarmo-nos com a intenção de assim procedendo, provocar a iracúndia do que nos injuria. Mas, quem calar, com o ânimo de deixar passar a cólera, é digno de louvor. Por onde, diz a Escritura, não disputes com o homem muito falador e não meterás mais lenha no seu fogo.