Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 2 – Se a detração é pecado mortal.

O segundo discute-se assim. – Parece que a detração não é um pecado mortal.

1. – Pois, nenhum ato de virtude é pecado mortal. Ora, revelar um pecado oculto, o em que, como já se disse, consiste a detração, é um ato de virtude ou de caridade, se revelarmos o pecado de nosso irmão, tendo em vista a sua correção; ou também ato de justiça, por o acusarmos. Logo, a detração não é pecado mortal.

2. Demais. – Aquilo da Escritura. – Não te mistures com os detratores – diz a Glosa: Especialmente este vício é o que põe em perigo todo o gênero humano, Ora, não há pecado mortal que seja praticado por todo o gênero humano, pois muitos deles se abstêm; os pecados veniais, ao contrário, são os que contaminam todo o gênero humano. Logo, a detração é pecado venial.

3. Demais. – Agostinho; considera um dos pequenos pecados maldizer com a maior facilidade ou temeridade, o que constitui a detração. Logo, a detração é pecado venial.

Mas, em contrário, o Apóstolo. Murmuradores aborrecidos de Deus; o que acrescenta, diz a Glosa, para a detração não ser considerada leve pelo fato de consistir em palavras.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos os pecados por palavras devem ser julgados, sobretudo conforme à intenção de quem as pronunciou. Ora, a detração visa, por natureza, denegrir a reputação de outrem. Por onde, detrai, propriamente falando, quem fala de terceiro, na sua ausência, para lhe denegrir a reputação. Ora, privar a outrem da sua boa reputação é muito grave;· pois, dentre os bens temporais ela é o mais precioso, porque a sua falta nos impede de praticar muitos bens. Por isso, diz a Escritura: Tem cuidado de adquirires bom nome, porque este será para ti um bem mais estável do que mil tesouros grandes e preciosos. Logo, a detração é, por natureza, pecado mortal.

Pode dar-se, porém, que digamos às vezes certas palavras em detrimento da reputação alheia, não com essa intenção, mas, com outra. O que é detrair, não essencial e formalmente, mas só materialmente falando e como por acidente. E se for o caso que profiramos tais palavras, em detrimento da boa reputação alheia, tendo em vista algum bem ou alguma necessidade, observadas as circunstâncias devidas, não há pecado, nem a tais palavras se pode chamar detração. Se as proferirmos, porém, por leviandade de alma, ou sem nenhuma necessidade, não há pecado mortal. Salvo, se as palavras ditas forem de tal modo graves que lesem notavelmente a reputação alheia, sobretudo no que diz respeito à honestidade de vida; pois então, tais palavras, pelo próprio gênero delas, tem natureza de pecado mortal.

E estamos obrigados a reparar o dano causado à reputação alheia como o estamos a restituir a coisa alheia subtraída, ao modo referido quando tratamos da restituição.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. ­– Como já dissemos, não é detrair revelar o pecado oculto do próximo, denunciando-o, tendo em vista a sua emenda; ou acusando-o, para o bem da justiça pública.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A Glosa citada não diz que a detração é praticada por todo o gênero humano, mas acrescenta – quase. Quer porque o número dos insensatos é infinito e poucos trilham o caminho da salvação; quer também por serem poucos ou nenhuns os que não digam às vezes, por leviandade de alma, certas palavras que ferem algum tanto, ainda que de leve, a reputação alheia. Por isso diz a Escritura. Se algum não tropeça em qualquer palavra, este é varão perfeito.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Agostinho se refere ao caso de dizermos de outrem algum leve mal, não com a intenção de o prejudicar mas, por leviandade de alma ou lapso da língua.