Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 4 – Se quem ouve com complacência o detrator peca gravemente.

O quarto discute-se assim. – Parece que quem ouve com complacência o detrator não peca gravemente.

1. – Pois, não temos maior obrigação para com outrem do que para conosco mesmos. Ora, é digno de louvor quem tolera pacientemente os seus detratores, conforme àquilo de Gregório. Assim como não devemos, por provocação nossa, excitar a língua dos detratores, afim de que não pereçam; assim, quando excitada pela malícia deles, devemos suportá-la com equanimidade para que aumentem os nossos méritos. Logo, não peca quem não se opõe às detrações dos outros.

2. Demais. – A Escritura diz: Não contradigas de modo algum a palavra da verdade. Ora, às vezes, detraímos, falando a verdade, como se disse. Logo, parece que nem sempre estamos obrigados a nos opor à detração.

3. Demais. – Ninguém deve impedir o que redunda em utilidade de outrem. Ora, a detração redunda frequentem ente em utilidade do detraído. Pois, diz o Papa Pio: Às vezes a detração levam­se contra os bons, exaltados pela presunção de família ou pelo favor dos outros, para os humilhar. Logo, não devemos lhe opor obstáculos.

Mas, em contrário, Jerônimo Acautela-te contra a sedução da língua ou dos ouvidos, isto é, para não distraíres os outros nem ouvir os que os destroem.

SOLUÇÃO. – Segundo o Apóstolo, são dignos de morte não só os que cometem pecados, senão também os que consentem aos que os fazem. O que pode dar-se de dois modos. Diretamente, quando induzimos outrem a pecar ou quando o pecado nos agrada. Indiretamente, não resistindo, quando podíamos fazê-lo, o que acontece às vezes, não por nos agradar o pecado, mas por um certo temor humano.

Donde devemos concluir que quem ouve, sem se lhe opor, a detração, é considerado como consentindo com o detrator e portanto como participando-lhe do pecado. E não peca menos, ao contrário, peca às vezes mais que ele, a induzi-lo a detrair, ou ao menos se se comprouver na detração, por ódio ao detraído. Por isso diz Bernardo: Não é fácil dizer qual destas duas causas é mais condenável – se detrair ou ouvir o detrator. Aquele porém que, embora não lhe agrade o pecado, deixa de repelir o detrator, por medo, negligência ou ainda vergonha, peca por certo, mas muito menos que ele e, às vezes, venilmente. Mas, outras vezes, o pecado pode ser mortal, quando se trata de quem tinha o dever de corrigir o detrator; ou por algum perigo consequente; ou pela razão radical que leva às vezes o temor humano a ser pecado mortal, como já demonstramos.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ Ninguém dá ouvido às detrações, que ouve de si próprio, porque não é detração, mas contumélia, o mal que de nós dizem os outros em nossa presença, como já dissemos. Contudo, pelas relações de outrem, podem chegar ao nosso conhecimento detrações proferidas contra nós. E então depende do nosso arbítrio suportar o detrimento feito à nossa boa reputação, se isso não redundar em perigo para terceiros, como já se disse assim, esse modo de proceder pode recomendar a nossa paciência, sofrendo pacientemente tais detrações. Mas, do nosso arbítrio não depende o detrimento que um terceiro possa vir a sofrer no seu bom nome. Por isso, redundará em culpa nossa se não nos opusermos á detração, podendo fazê-lo, pela mesma razão por que estamos obrigados a ajudar a levantar o jumento de outrem caído no caminho, como manda a Escritura.

RESPOSTA À SEGUNDA. –- Nem sempre devemos resistir ao detrator acusando-o de falsidade, sobretudo se soubermos ser verdade o que diz. Mas, devemos acusá-lo verbalmente por pecar, de traindo seu irmão; ou ao menos mostrar-lhe, pela tristeza espelhada em nosso rosto, que a detração não nos agrada. Pois, diz a Escritura: O vento do Aquilão dissipa as chuvas, e o rosto triste a língua maldizente.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A utilidade proveniente da detração não procede da intenção do detrator, mas, da disposição de Deus, que de qualquer mal faz jorrar o bem. Mas, isso não nos tira o dever de resistir aos detratores, bem como aos ladrões e aos opressores dos outros, embora, sofrendo-os, os oprimidos e os espoliados tenham, pela sua paciência, os seus méritos aumentados.