Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 2 – Se a derrisão pode ser um pecado mortal.

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O segundo discute-se assim. – Parece que a derrisão não pode ser pecado mortal.

1. – Pois, todo pecado mortal contraria à caridade. Ora, parece que a derrisão não a contraria. Pois, faz-se às vezes por ludo ou divertimento, entre amigos, chamando-se por isso delusão. Logo, a derrisão não pode ser pecado mortal.

2. Demais. – A máxima derrisão é a que injuria a Deus. Ora, nem toda a derrisão que importa em injúria a Deus é pecado mortal; do contrário quem viesse a recair num pecado mortal, de que se arrependeu, pecaria mortalmente. Pois, diz Isidoro, comete o pecado de irrisão e de impenitência quem de novo faz o de que se arrependeu. Do mesmo modo se concluiria que toda simulação seria pecado mortal; pois, como diz Gregório o avestruz significa o simulador, que faz derrisão do cavalo, isto é, do homem justo, e do cavaleiro, isto é, de Deus. Logo, a derrisão não é pecado mortal.

3. Demais. – Parece que a contumélia e a detração são pecados mais graves que a derrisão; porque fazer uma coisa com seriedade é mais importante do que fazê-la por divertimento. Ora, nem toda detração ou contumélia é pecado mortal. Logo, muito menos o é a derrisão.

Mas, em contrário, a Escritura: Ele escarnecerá dos escarnecedores. Ora, o escarnecer de Deus consiste em punir eternamente o pecado mortal, como é claro pelo dito da Escritura: Aquele que habita no céu zombará deles. Logo, a derrisão é pecado mortal.

SOLUÇÃO. – Só fazemos irrisão de outrem por causa de algum mal ou defeito. Ora, o mal que é grande não se torna como um objeto de divertimento, mas, a sério. Por onde, se se transforma em objeto de ludo ou riso, donde procede o nome de irrisão ou ilusão, é porque é considerado como pequeno. Ora, um mal pode ser assim considerado de dois modos: em si mesmo, ou em razão da pessoa. Quando fazemos do mal ou do defeito de outrem objeto de divertimento ou de riso, porque esse mal, em si mesmo considerado, e pequeno, o pecado é genericamente venial e leve. Mas, quando é considerado pequeno em razão da pessoa, como se dá com os defeitos das crianças e dos estultos, a que costumamos ligar pouca importância, então fazer de alguém objeto de divertimento ou de irrisão é ligar-lhe absolutamente pouca importância e considerá-lo tão vil que não lhe levamos em conta o seu mal, antes, o tomamos como objeto de divertimento. E nesse caso a derrisão é pecado mortal e mais grave que a contumélia, que, como ela, procede às claras; pois, ao passo que o contumelioso toma a sério o mal de outrem, e que faz dele irrisão o toma como objeto de divertimento e, portanto, causa-lhe maior desprezo e desonra. E, a esta luz, a ilusão é pecado grave e tanto mais quanto maior é a reverência devida à pessoa escarnecida.

Donde, é gravíssimo fazer irrisão de Deus e das coisas de Deus, conforme aquilo da Escritura. A quem afrontaste? E a quem blasfemaste? E contra quem levantaste a voz? E a seguir acrescenta: Contra o santo d’Israel. – Depois, o segundo lugar ocupa a derrisão dos pais. Por isso, diz a Escritura. O olho do que escarnece de seu pai e do que despreza a paridura de sua mãe, arranquem-no os corvos que andam à borda das torrentes e comam-no os filhos da águia. – Depois, é grave a derrisão dos justos, porque a honra é o prêmio da virtude. E contra ela diz a Escritura: Zomba­se da simplicidade do justo. Derrisão que é muito nociva, porque impede os outros de agirem bem, conforme aquilo de Gregório. Os que vem manifestar-se o bem nos atos dos outros, logo o arrancam com as mãos da pestífera exprobração.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. –­ O ludo não importa nada de contrário à caridade, relativamente ao que é objeto dele. Pode porém implicar algo contra ela em relação à pessoa de quem escarnecemos, por causa do desprezo, como já dissemos.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Quem recai no pecado de que fez penitência, e quem simula, esses não fazem expressamente irrisão de Deus, mas como que interpretativamente, por se comportarem ao modo de quem faz irrisão. – Contudo, ninguém que peca venialmente reincide, em sentido próprio, ou simula, mas só, dispositiva e imperfeitamente.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A derrisão é, por essência, mais leve que a detração ou a contumélia, porque não implica o desprezo, mas, o divertimento, Mas, às vezes importa em maior desprezo que a contumélia, como dissemos. E então é pecado grave.