Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se a religião ordena o homem só para Deus.

O primeiro discute–se assim. – Parece que a religião não ordena o homem só para Deus.

1. – Pois diz a Escritura: A religião pura e sem mácula aos olhos de Deus e nosso Pai consiste nisto: Em visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, e em se conservar cada um isento da corrupção deste século. Ora, visitar viúvas e órfãos supõe relação com o próximo; e o dito – conservar–se cada uni a si isento da corrupção deste século – implica em ordenar–se o homem para si mesmo. Logo, a religião não tem por fim só ordenar–nos para Deus.

2. Demais. – Agostinho diz: Pelo costume latino de falar, não só dos imperitos, mas também dos muito doutos, disse que a religião deve manifestar–se quando se trata do parentesco e da afinidade humana e de quaisquer necessidades. Por isso, não se evita a ambiguidade desse vocábulo, quando, ao se tratar do culto à divindade, discute–se a questão de saber se confiadamente podemos falar em religião só em se tratando do culto a Deus. Logo, a religião não se ordena só para Deus, mas também, para os próximos.

3. Demais. – Parece que à religião pertencem três latrias, pois, latria se interpreta como servidão, no dizer de Agostinho. Ora, servir nós o devemos não só a Deus mas também aos próximos, conforme àquilo da Escritura: Servi–vos uns aos outros pela caridade do Espírito. Logo, a religião importa em nos ordenarmos também para o próximo.

4. Demais. – À religião pertence o culto. Ora, diz–se que o homem presta culto não só a Deus, mas, também ao próximo, segundo àquilo de Catão: Cultua os pais. Logo, a religião também nos ordena para o próximo e não só para Deus.

5. Demais. – Todos os que vivem no estado de graça sujeitam–se voluntariamente a Deus. Ora, nem todos os que vivem nesse estado se chamam religiosos; mas, só aqueles que por certos votos se obrigam a certas observâncias e a obedecer a certos homens. Logo, parece que a religião não importa uma relação de sujeição do homem a Deus.

Mas, em contrário, Túlio diz, que a religião presta culto e realiza cerimônias à natureza divina suprema.

SOLUÇÃO. – Como diz Isidoro, o religioso tira a sua denominação, na dizer de Cícero, de reler, porque repassa no espirito, e como que relê as cousas pertencentes ao culto divino. E assim, a religião deriva a sua designação de reler as cousas pertencentes ao culto divino, pois, tais cousas devem ser frequentemente revolvidas no espírito conforme aquilo da Escritura: Traze–me no pensamento em lodos os teus caminhos, – Embora também se possa entender que a religião é assim chamada, porque devemos reeleger a Deus que perdemos pela nossa negligência, como diz Agostinho; – ou podemos ainda entende–la como derivada de religar; donde o dizer Agostinho: A religião nos religue ao Deus único, e onipotente. Quer porém a religião seja assim chamada por causa da frequente lição; quer pela reeleição do que negligentemente perdemos, quer pela religação, ela propriamente importa em nos ordenarmos para Deus. Pois, é o ser ao qual principalmente nos devemos ligar, como ao princípio ineficiente; a quem a nossa eleição também deve assiduamente dirigir–se, como ao último fim; e a quem, perdendo pela nossa pecaminosa negligência, devemos recuperar pela crença e protestando a nossa fé.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A religião implica duas espécies de atos. Uns próprios, imediatos e ilícitos dela, como sacrificar, adorar e outros semelhantes, pelos quais o homem se ordena só para Deus. Outros atos porém ela os produz mediante as virtudes sobre que impera, ordenando–os à divina reverência. Pois, a potência de que depende o fim impera sobre aquelas de que dependem os meios. E, sendo assim, considera–se como ato de religião, a modo de império, visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, que é um ato elícito da misericórdia. Conservar–se cada um a si isento da corrupção deste século, é, como imperado, ato de religião; mas, como ato elícito, pertence à temperança ou a outra virtude semelhante.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A religião pode significar, em sentido lato, os atos referentes ao parentesco humano; mas não quando tomada em sentido próprio. Por isso Agostinho, pouco antes das palavras aduzidas, tinha dito: A religião, mais distintamente, parece significar não qualquer culto, mas, o de Deus.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Sendo o servo assim chamado pela dependência, que supõe, do senhor, necessariamente, onde existe o domínio, na sua noção própria e especial, há de também existir, na sua noção própria e especial, a servitude. Ora, é manifesto que o domínio convém a Deus, por uma noção própria e singular, pois, foi ele quem fez tudo e tem sobre todas as causas o sumo principado. Logo, é–lhe devida a servitude, na sua acepção própria, que os gregos designam com o nome de latria e que, portanto, pertence propriamente à religião.

RESPOSTA À QUARTA. – Diz–se que cultuamos os homens, que frequentamos, pela honorificiência, pela recordação ou pela presença. E também se diz que cultuamos certas causas que nos estão sujeitas; assim, os agricultores tiram a sua denominação do facto de cultivarem os campos; e chamam–se íncolas por cultivarem os lugares que habitam. Ora, sendo devida a Deus honra especial, como ao principio primeiro de todas as cousas, é lhe também devido um culto, na sua noção especial, chamado em grego eusébeia, ou theosébeia, como está claro em Agostinho.

RESPOSTA À QUINTA. – Embora em geral possam chamar–se religiosos todos os que cultuam a Deus, contudo, em especial, religiosos se chamam os que dedicam toda a vida ao culto divino, apartados dos negócios mundanos. Assim como também se chamam contemplativos, não os que contemplam, mas os que aplicam toda a vida à contemplação. Ora, esses tais não se sujeitam ao homem por causa do homem, mas, por causa de Deus, conforme aquilo do Apóstolo: Vós me recebestes como a um anjo de Deus, como a Jesus Cristo