Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 – Se a devoção é um ato de religião.

O segundo discute–se assim. – Parece que a devoção não é um ato de religião.

1. – Pois, a devoção, como se disse, consiste em nos darmos a Deus. Ora, isto se realiza, sobretudo pela caridade; pois, como diz Dionísio, o amor divino produz o êxtase, não consentindo que os amantes se pertençam a si mesmos, mas aos seres que amam, Logo, a devoção é mais um ato de caridade que de religião,

2. Demais. – A caridade tem precedência sobre a religião. Ora, parece que a devoção tem precedência sobre a caridade; pois, na Escritura, a caridade é simbolizada pelo fogo; e a devoção, pela gordura, que é a matéria do fogo. Logo, a devoção não é um ato de religião.

3. Demais. – Pela religião o homem se ordena só para Deus, como se disse. Ora, também há devoção para com os homens; assim, dizemos que uns têm devoção para com certos varões santos; e também, que os escravos são devotados aos seus senhores. E neste sentido Leão Papa diz que os Judeus, quase devotados às leis romanas, exclamaram: Não temos outro rei senão César. Logo, a devoção, não é ato de religião.

Mas, em contrário, devoção deriva de devotar se, como se disse. Ora, o voto é um ato de religião. Logo, também a devoção.

SOLUÇÃO. – Pela mesma virtude queremos fazer um certo ato e temos a vontade pronta para fazê–lo, porque ambos esses atos tem o mesmo objeto. Por isso diz o Filósofo: a justiça faz os homens quererem e praticarem atos justos. Ora, é manifesto que propriamente à religião pertence fazer o que respeita ao culto ou serviço divino, como do sobredito se colhe. Portanto também a ela pertence tornar–nos a vontade pronta para executar tais atos, o que é ser devoto. Por onde, é claro que a devoção é um ato de religião.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – A caridade pertence imediatamente levar o homem a se dar a Deus, Entregando–se–lhe por espírito de união. Mas, o darmo–nos a Deus para certas obras do culto divino é imediatamente próprio da religião, e Imediatamente, da caridade, que é o princípio da religião.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A gordura corporal gera–se pelo calor natural, que digere, e conserva esse próprio calor, como sua nutrição. Semelhantemente, a caridade por um lado, causa a devoção tornando–nos prontos para servir aos amigos por amor; e por outro, nutre–se da devoção, assim como qualquer amizade conserva–se e aumenta pelo exercício dos atos de amizade e pelo meditar neles.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A devoção que temos para com os santos de Deus, mortos ou vivos, não acabei neles, mas chega até Deus, pelo venerarmos nos seus ministros. Ora, a devoção que atribuímos aos escravos para com o senhor temporal é de outra natureza; assim como servir aos senhores temporais difere de servir a Deus.