Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se a oração é um ato de virtude apetitiva.

O primeiro discute–se assim. – Parece que a oração é um ato de virtude apetitiva.

1. – Pois, a oração é para ser ouvida. Ora, é o desejo que é ouvido de Deus, segundo a Escritura: O Senhor ouviu o desejo dos pobres. Logo, a oração é um desejo. Ora, o desejo é um ato da virtude apetitiva. Portanto, também a oração.

2. Demais. – Dionísio diz: Antes de tudo é útil começar pela oração como a que nos dá e une a Deus. Ora, é a união, pertencente à potência apetitiva, que produz o amor. Logo, a oração pertence à potência apetitiva.

3. Demais. – O Filósofo diz que são duas as operações da parte inte1ectiva. A primeira é a inteligência dos indivisíveis, pela qual apreendemos a qualidade das cousas. A segunda, a composição e a divisão, pelas quais apreendemos o que é. A essas partes se acrescenta uma terceira, o raciocínio, que procede do conhecido para o desconhecido. Ora, a oração não se reduz a nenhuma dessas operações. Logo, não é ato da virtude intelectiva, mas, da apetitiva.

Mas, em contrário, diz Isidoro, que orar é o mesmo que dizer. Ora, dizer é ato próprio do intelecto. Logo, orar não é ato da potência apetitiva, mas, da intelectiva.

SOLUÇÃO. – Segundo Cassiodoro, oração significa como que razão vocal. Ora, a razão especulativa e a prática diferem em que aquela só apreende as cousas: e esta, não só as apreende, mas também as causa. Mas, de dois modos pode uma cousa ser causa de outra. De modo perfeito, quando impõe necessidade, o que se dá quando o efeito totalmente depende da ação da causa. De modo imperfeito, por simples disposição: isto é, quando o efeito não depende totalmente da ação da causa. Assim, pois, também a razão pode ser de dois modos; causa. De um, impondo necessidade; e deste modo compete–lhe não só imperar sobre as potências inferiores e os membros do corpo, mas também sobre os homens que lhe estão sujeitos, ordenando–lhes. De outro modo, influindo e de certa maneira dispondo; assim, quando pede lhe façam alguma cousa os que não lhe estão sujeitos, por serem iguais ou superiores. Ora, ambos esses modos de proceder, isto é, imperar e pedir ou deprecar implicam uma certa ordenação, por dispormos que uma cousa seja feita por meio de outra. O que portanto pertence à razão, a que é próprio ordenar; e por isso diz o Filósofo, que a razão nós exorta ao melhor. Ora, é neste sentido que agora tratamos da oração, enquanto implica uma certa deprecação ou petição, conforme às palavras de Agostinho dizendo, que a oração é um certo pedido; e às de Damasceno, ensinando que a oração consiste em pedirmos a Deus o que convém. Por onde é claro, que a oração, no caso vertente, é um ato de razão.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Diz–se que Deus ouve o desejo dos pobres, quer por ser o desejo a causa do pedido, sendo este de certo modo o intérprete daquele; quer para mostrar a rapidez da audição, pois, Deus já ouve o que ainda constitui um simples desejo dos pobres, antes de eles o formularem em oração, conforme àquilo da Escritura: E acontecerá que antes que eles bradem eu os escutarei.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Como já dissemos, a vontade move a razão para os seus fins. Por onde, nada impede que, movido pela vontade, o ato da razão tenda para o fim da caridade, que é a união com Deus. Ora, a oração tende para Deus, quase movida pela vontade da caridade, de dois modos. De um modo, quanto ao que é pedido, pois, o que principalmente devemos pedir na oração é a nossa união com Deus, segundo a Escritura: Uma só cousa pedi ao Senhor; esta tornarei a pedir: que habite eu na casa do Senhor todos os dias da minha vida. De outro, quanto ao que pede, que deve aproximar–se daquele a quem pede, ou localmente, tratando–se de um homem, ou espiritualmente, de Deus. Por onde, diz no mesmo lugar Dionísio, que quando invocamos a Deus nas nossas orações, achamo–nos presentes a ele, com o espírito descoberto. E, neste sentido também Damasceno diz que a oração é a ascenção do espirito para Deus.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Os três atos referidos pertencem à razão especulativa. Mas, ulteriormente, à razão prática pertence causar pelo império ou pela petição, como se disse.