Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 7 – Se devemos orar pelos outros.

O sétimo discute–se assim. – Parece que não devemos orar pelos outros.

1. – Pois, nas nossas orações devemos repetir a forma que Deus estabeleceu. Ora, na Oração Dominical, pedimos por nós e não, pelos outros quando dizemos: O pão nosso de cada dia nos dai hoje, e coisas semelhantes. Logo, não elevemos orar pelos outros.

2. Demais. – A oração é feita para ser ouvida. Ora, uma das condições para a oração ser ouvida é que peçamos por nós. Por isso; àquilo da Escritura.– Se vós pedirdes a meu Pai alguma coisa em meu nome, ele vô–la há de dar – Agostinho diz: Cada um é ouvido em seu próprio proveito e não no dos outros; porque o Evangelho não diz de um modo geral há de dar, mas, vô–la há de dar. Logo, parece que não devemos orar pelos outros, mas, só por nós.

3. Demais. – Estamos proibidos de orar pelos outros, se forem maus, conforme àquilo da Escritura: Tu pois não rogues por este povo e não te me oponhas; porque te não escutarei. Ora, pelos bons não há necessidade de orar, porque são ouvidos quando oram em seu próprio favor. Logo, parece que não devemos orar pelos outros.

Mas, em contrário, a Escritura: Orai uns pelos outros para serdes salvos.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos, devemos pedir nas nossas orações o que devemos desejar. Ora. devemos desejar o bem, não só para nós, mas também para os outros; o que pertence ao amor, por natureza, que devemos ter para com os próximos, como do sobredito resulta. Por isso a caridade exige que oremos pelos outros. Donde o dizer Crisóstomo: A necessidade obriga a orarmos por nós; e a orar pelos outros a caridade fraterna nó–la exorta. Ora, perante Deus, é mais doce a oração que não se funda na necessidade, mas se inspira na caridade fraterna.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Como nota Cipriano, não dizemos, Padre meu, mas nosso; nem, dá–me, mas dá–nos, porque O Mestre da unidade não quis que fizéssemos oração em particular, pedindo cada um só por si. Pois, quer que cada um ore por todos, como trouxe todas as almas numa só alma.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Foi posta como condição da oração que orássemos, por nós, não como necessária para merecermos o efeito dela, mas, como para assegurar–lhe a realização. Pois, pode acontecer às vezes, que a oração feita em benefício de outrem, mesmo se for pia, perseverante e pedir o que lhe respeita à salvação, não consiga o que pede, por causa de algum impedimento por parte daquele por quem oramos, conforme àquilo da Escritura: Ainda que Moisés e Samuel; se pusessem diante de mim, não está a minha alma com este povo. Nem por isso, contudo, deixará de ser meritória a oração para quem ora com caridade, conforme à Escritura; A minha oração dava voltas no meu seio. O que comenta a Glosa: isto é, embora não lhe aproveite, eu porém não ficarei frustrado da minha recompensa.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Devemos orar, mesmo pelos pecadores, para que se convertam e pelos justos, para que perseverem e progridam. – Porém, os que oram não são ouvidos, em benefício de todos os pecadores, mas só de alguns. São-no quando se trata dos predestinados: mas não pelos prescitos à morte eterna. Assim como também a correção, com que corrigimos os nossos irmãos, produz o seu efeito, quanto aos predestinados e não, quanto aos reprovados, segundo àquilo da Escritura: Ninguém pode corrigir a quem Deus desprezou. E por isso diz ainda ela: O que sabe que seu irmão comete um pecado, que não é para morte, peça, e será dada vida ao tal, cujo pecado não é para morte. Ora, assim como não devemos privar ninguém, enquanto viver, do benefício da correção, por não podermos distinguir os predestinados, dos reprovados, como diz Agostinho, assim também a ninguém devemos negar o sufrágio da oração. – E também devemos orar pelos justos por três razões. Primeiro, porque as preces de muitos são ouvidas mais facilmente. Por isso àquilo do Apóstolo – Que ajudeis com as vossas orações – comenta a Glosa: Com razão o Apóstolo pede aos seus inferiores, que orem por ele, pois, muitos pequenos, congregando–se numa só alma, tornam–se grandes; e é impossível a prece de muitos não conseguir o que, é claro, possa ser obtido. Segundo, porque sejam muitos os que deem graças a Deus pelos benefícios que faz aos justos e que redundam em utilidade de todos, como está claro no Apóstolo. Terceiro, para que os grandes não se ensoberbeçam, considerando que precisam dos sufrágios dos pequenos.