Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 8 – Se devemos orar pelos inimigos.

O oitavo discute–se assim. – Parece que não devemos orar pelos nossos inimigos.

1. – Pois, como diz o Apóstolo, tudo quanto está escrito, para nosso ensino está escrito. Ora, na Sagrada Escritura fazem–se muitas imprecações contra os inimigos. Assim, num lugar se lê: Sejam confundidos e conturbados todos os meus inimigos; convertam–se e sejam cobertos de ignomínia num instante. Logo, também devemos orar, antes, contra os nossos inimigos, que em favor deles.

2. Demais. – A vingança que tiramos dos inimigos redunda–lhes em mal. Ora, os santos pedem vingança deles, como se lê na Escritura: Até quando dilatas tu vingar o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? E por isso alegram–se com a vingança tirada dos ímpios: Aleqrar–se–a o justo quando vir a vingança. Logo, não devemos orar pelos inimigos, mas antes contra eles.

3. Demais – Os nossos atos e as nossas orações não devem ser contrários. Ora, às vezes é lícito atacarmos os nossos inimigos, do contrário todas as guerras seriam ilícitas, o que vai contra o que já foi dito. Logo, não devemos orar pelos nossos inimigos.

Mas, em contrário, a Escritura: Orai pelos que vos perseguem e caluniam.

SOLUÇÃO. – Orar pelos outros é obra de caridade, como dissemos. Portanto, do mesmo modo por que estamos obrigados a amar os inimigos, desse mesmo elevemos orar por eles. Ora, como devemos amá–los, já o dissemos no tratado sobre a caridade; isto é, devemos amar–lhes a natureza e não a culpa. E que amá–los em geral, é de preceito, mas não o é em especial, senão como preparação da alma, isto é, para estarmos preparados a amá–las, mesmo em especial, e a ajudá–los em caso ele necessidade ou se nos pedirem perdão. Mas, amá–los em especial, absolutamente falando, e ajudá–los é obra de perfeição. Semelhantemente, é necessário que das orações, que fizermos geralmente pelos outros, não excluamos os inimigos. Mas é obra de perfeição orarmos particularmente por eles, e não de preceito, salvo nalgum caso especial.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – As imprecações existentes na Sagrada Escritura podemos entendê–las em quatro sentidos. Primeiro, para significar que os profetas costumam, sob a forma de imprecações, predizer o futuro, como explica Agostinho. Segundo, para significar que Deus manda às vezes certos males temporais aos pecadores para corrigi–los. Terceiro, para se entenderem como feitas não contra os homens diretamente, mas, contra o reino do pecado, isto é, para que, pela correção dos homens, o pecado fique destruído. Quarto, como que conformando o que querem significar, com a justiça divina, que condena os que perseveram no pecado.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Como diz Agostinho, a vingança. dos mártires está em que seja destruído o reino do pecado, que, enquanto preponderava, causou–lhes tantos sofrimentos. Ou, pedem que sejam vingados, não vocal, mas racionalmente, assim como o sangue de Abel clamava da terra. E alegram–se, não com a vingança em si mesma, mas, com a divina justiça.

RESPOSTA À TERCEIRA. – É lícito atacarmos os inimigos para lhes impedirmos os pecados, o que redunda em benefício deles e dos outros. E assim também é lícito pedirmos, nas nossas orações, certos males temporais para, os inimigos, para que se corrijam. Por onde, a oração e as obras não serão contrárias.