Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 – Se devemos sempre fazer voto do nosso maior bem.

O segundo discute–se assim. – Parece que nem sempre devemos fazer voto do nosso maior bem.

1. – Pois, considera–se maior bem o que é superrogatório. Ora, fazemos voto não só de bens superrogatórios, mas ainda dos necessários a salvação. Assim, no batismo, fazemos voto de renunciar ao diabo e às suas pompas, e de conservar a fé, como explica a Glosa àquilo da Escritura – Fazei votos ao Senhor Vosso Deus e cumpri–os. E Jacó também fez votos que lhe seria o Senhor o seu Deus, como se lê ainda na Escritura, coisa absolutamente necessária à salvação. Logo, nem só de dar o nosso maior bem fazemos voto.

2. Demais. – Jefté está no catálogo dos santos, corno diz o Apóstolo. Ora, matou uma filha inocente, para cumprir um voto, conforme se lê na Escritura. Por onde não sendo a imolação de um inocente, ato em si mesmo ilícito, um maior bem, parece que podemos fazer voto, não só de nosso maior bem, mas ainda, de praticar atos ilícitos.

3. Demais. – O que redunda em nosso detrimento ou o que não tem nenhuma utilidade, não é por natureza um bem maior. Ora, às vezes fazemos voto de certas vigílias ou jejuns imoderados, que redundam em perigo nosso; e outras, o fazemos de coisas indiferentes e de todo inúteis. Logo, nem sempre fazemos voto de nosso maior bem.

Mas, em contrário, a Escritura: Se não quiseres prometer não pecarás.

SOLUÇÃO. – Como já dissemos, o voto é uma promessa feita a Deus. Ora, a promessa é um ato voluntário com que nos obrigamos para com outrem. Pois, não haveria promessa, mas ameaça, se nos determinássemos a agir contra outrem. Semelhantemente, seria vã a promessa, se prometêssemos a outrem o que este não aceitasse. Por onde, sendo todo pecado contra Deus, e Deus só aceitando as obras virtuosas, resulta que não devemos fazer voto de nada indiferente ou ilícito, mas só de atos de virtude. Mas, como o voto implica uma promessa voluntária e a vontade exclui a necessidade, de nenhum modo pode constituir objeto de voto o que absolutamente há–de ou não suceder. Pois, seria estulto quem fizesse voto de morrer ou de não voar. Pode, porém ser matéria de voto o que não constitui uma necessidade absoluta, mas, uma necessidade de fim, como condição imprescindível para a salvação; mas, enquanto o cumprimos voluntariamente e não pelo exigir a necessidade. O que, porém nem é exigido por uma necessidade absoluta nem por uma necessidade de fim é absolutamente voluntário. Por isso, constitui proprissimamente objeto de voto. E a isto se chama um maior bem, por comparação com o bem que comumente o é, por necessidade da salvação. Logo, propriamente falando, o voto tem por objeto o maior bem.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Pode constituir voto dos batizados a renúncia ao diabo e às suas pompas, e conservar a fé de Cristo, porque é um ato voluntário, embora de necessidade para a salvação. E o mesmo se pode dizer do voto de Jacó; embora também se possa entender que ele fez voto de ser o Senhor o seu Deus, para um culto especial, a que não estava obrigado; assim como, para a obtenção de dízimos e de outras causas a que também o não estava, e que no mesmo lugar se mencionam.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Certas causas há que sempre são boas, como as obras de virtude e outros bens, que podem constituir, absolutamente falando, objeto de voto. Outras são más em toda ocasião, como as que, em si mesmas consideradas, são pecados; e essas de nenhum modo podem ser matéria de voto. Mas, outras que, boas em si mesmas e, como tais, podendo ser matéria de voto, podem, contudo ter má aplicação, e nesse caso, o voto que recaiu sobre elas não deve ser cumprido. Tal o caso de Jefté, que, como refere a Escritura, fez um voto ao Senhor dizendo; se tu me entregares nas mãos os filhos d’Amon, a primeira pessoa, seja ela qual for, que sair da porta de minha casa e se encontrar comigo quando eu tornar vitorioso dos filhos d’ Amon, eu a oferecerei ao Senhor em holocausto. Mas, este voto podia ser mal sucedido, se lhe viesse ao encontro um ser que não podia ser imolado, como um asno ou um homem; o que também aconteceu. Por isso, Jerónimo comenta: foi estulto ao fazer o voto, por não o ter feito com discernimento; e, ao cumpri–lo, foi ainda mais ímpio. Mas, no mesmo lugar a Escritura acrescenta: Entrou o espírito do Senhor em Jefté; porque a fé e a devoção que o levaram a fazer o voto fundavam–se no Espírito Santo; pelo que é considerado pelo número dos santos. E por causa da vitória que ganhou e por ser provável que se arrependeu do ato iníquo cometido, o qual contudo figurava uma causa boa.

RESPOSTA À TERCEIRA. – A maceração do próprio corpo, por exemplo, por vigílias e jejuns, Deus não a aceita senão como obra de virtude. E o é quando praticada com a discrição devida, isto é, para refrear a concupiscência, sem gravame demasiado de natureza. E, com essa condição, pode ser matéria de voto. Por isso, o Apóstolo, depois de ter dito – Ofereçais os vossos corpos como uma hóstia viva, santa, agradável a Deus acrescenta: que é o culto racional que lhe deveis. Mas, como nós nos enganamos facilmente em julgar o que nos concerne, é mais conveniente que os referidos votos os observemos ou os emitamos conforme ao juízo do superior. De modo tal que se o cumprimento de tal voto nos acarretasse grande e manifesto, inconveniente e não tivéssemos a faculdade de recorrer a um superior, não deveríamos cumpri–lo. Quanto aos votos de fazermos causas vãs e inúteis, são antes para se desprezarem que para se cumprirem.