Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 – Se devemos nos servir do canto para louvar a Deus.

O segundo discute–se assim. – Parece que não devemos nos servir do canto para louvar a Deus.

1. – Pois, diz o Apóstolo: Ensinando–nos e admoestando–nos uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais. Ora, não devemos usar para o culto divino senão do que nos é permitido pela autoridade da Sagrada Escritura. Logo, parece que não devemos usar, para louvar a Deus, de cânticos vocais, mas só, espirituais.

2. Demais. – Jerónimo, àquilo do Apostolo – Cantando e louvando ao Senhor vossos corações – Diz: Ouçam–me os adolescentes, ouçam–me os que tem na Igreja o dever de cantar salmos: devemos cantar a Deus, não com palavras, mas com o coração; nem deveis efeminar a voz com as vãs afetações da arte teatral, como se faz nas tragédias, de modo a se ouvirem na Igreja modulações e cânticos teatrais. Logo, não devemos usar do canto para louvar a Deus.

3. Demais. – Louvar a Deus é próprio tanto dos pequenos como dos grandes, segundo aquilo da Escritura: Dizei louvor ao nosso Deus, todos os seus servos, e os que o temeis, pequeninos e grandes. Ora, os grandes da Igreja não devem cantar; pois, diz Gregório, num decreto: Ordeno pelo presente decreto que nesta Sé os ministros do sagrado altar não devem cantar. Logo, os cantos não convêm ao louvor divino.

4. Demais. – Na lei antiga Deus era louvado com instrumentos musicais e cânticos humanos, como se lê na Escritura: Louvai ao Senhor com a cítara; cantai–lhe hinos a ele com o saltério de dez cordas; cantai–lhe a ele um novo cântico. Ora, a Igreja não usa de instrumentos musicais, como cítaras e saltérios, para louvar a Deus, para que não pareça voltar aos costumes judaicos. Logo, pela mesma razão não devemos usar de cânticos para louvar a Deus.

5. Demais. – É mais principal o louvor da mente que o da boca. Ora, o louvor da mente fica impedido pelo canto, quer porque a atenção dos cantores deixa de se aplicar ao assunto, preocupados que estão com o canto; quer também porque as palavras cantadas são menos entendidas dos ouvintes do que o seriam se fossem proferidas sem canto. Logo, não devemos usar do canto para louvar a Deus.

Mas, em contrário, Santo Ambrósio instituiu o canto na Igreja de Milão, como refere Agostinho.

SOLUÇÃO. – Como dissemos, o louvor vocal é necessário para nos despertar o afeto para Deus. Por isso, de tudo o que pode ser útil para esse fim, podemos usar para louvar a Deus. Ora, é manifesto que as diversas melodias sonoras dispõem diversamente as almas humanas, como claramente o ensina o Filósofo e Boécio. Por onde, foi salutarmente instituído que se usasse do canto para louvar a Deus, despertando assim maior devoção nas almas tíbias. Por isso diz Agostinho: Aprovo o costume de cantar na Igreja para que as almas tíbias intensifiquem o afeto do amor, com o prazer de ouvir. E diz de si mesmo: Chorei ouvindo os teus hinos e cânticos e vivamente me comovi aos melodiosos acentos da tua Igreja.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Cânticos espirituais podem chamar–se não só os que cantamos interiormente na alma, mas também os que oralmente cantamos, porque aumentam a devoção espiritual.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Jerônimo não reprovava o canto de maneira absoluta, mas repreende os que cantam na Igreja teatralmente, não com o fim de despertar a devoção, mas por ostentação e para provocar o prazer. Por isso diz Agostinho: Quando me acontece deixar comover–me mais pelo canto do que pelo objeto dele, confesso arrependido que peco e então mais preferiria não ouvir o cantor.

RESPOSTA À TERCEIRA. – É preferível levar os homens à devoção pela doutrina e pela pregação do que pelo canto. Por isso os diáconos e os prelados que devem, ensinando e pregando, atrair as almas para Deus, não hão de dar importância ao canto, deixando de parte obrigações de maior relevo. Por isso, no mesmo lugar Gregório diz: Costume é muito repreensível, que aqueles que receberam a ordem do diaconato e devem se entregar aos deveres da esmola e da pregação, andem a se preocupar com a modulação da voz.

RESPOSTA À QUARTA. – Como diz o Filósofo, para o ensino não se devem usar flautas nem de qualquer instrumento semelhante, como a citara e outros; mas, de tudo o que contribuir para os ouvintes serem bons. Pois, esses instrumentos musicais movem antes a alma ao prazer do que despertam as boas disposições interiores. No antigo Testamento usavam–nos, quer porque, sendo o povo mais duro e carnal, havia necessidade de lhes tocar os sentidos, como também a de lhes fazer promessas terrenas; quer ainda porque esses instrumentos materiais tinham significação figurativa.

RESPOSTA À QUINTA. – A inteligência de quem se aplica a deleitar com o canto perde de vista o sentido das palavras, que vai cantando. Mas, quem canta por devoção nelas reflete com mais atenção, quer por se deter mais demoradamente numa mesma palavra; quer porque, como diz Agostinho, todos os afetos do nosso espírito, conforme a sua diversidade, descobrem modalidades próprias da voz e do canto com que se movem, por uma secreta familiaridade. E o mesmo se dá com os ouvintes que, embora às vezes não entendam o canto, entendem porem que se canta, para louvar a Deus; e isto basta para despertar a devoção.