Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 1 – Se o culto do verdadeiro Deus pode encerrar algo de pernicioso.

O primeiro discute–se assim. – Parece que o culto do verdadeiro Deus nada pode encerrar de pernicioso.

1. – Pois, diz a Escritura: Todo o que invocar o nome do Senhor será salvo. Ora, quem cultua a Deus de algum modo lhe invoca o nome. Logo, todo culto que tributamos a Deus contribui para a nossa salvação. Logo, nenhum é pernicioso.

2. Demais. – O Deus cultuado pelos justos foi sempre o mesmo em todas as idades do mundo. Ora, antes de haver lei, os justos cultuavam a Deus como lhes aprazia, sem cometerem por isso pecado mortal. Assim Jacó se obrigou livremente, por voto, a um culto especial, como se lê na Escritura. Logo, ainda agora, nenhum culto de Deus é pernicioso.

3. Demais. – A Igreja não admite nada de pernicioso. Ora, ela admite diversos ritos de cultuar a Deus. Por isso, Gregório escreve a Agostinho, bispo dos ingleses, que propunha os diversos costumes da Igreja de celebrar a missa: Apraz–me que escolhas solicitamente o que achaste que posso mais agradar a Deus onipotente tanto nas igrejas romanas como nas gaulesas ou em quaisquer outras. Logo, não há nenhum modo pernicioso de cultuar a Deus.

Mas, em contrário, Agostinho diz e está na Glosa, que a observância das cerimônias da lei antiga, depois de divulgada a verdade do Evangelho, tornou–se mortal. E, contudo essas cerimônias visavam o culto de Deus. Logo, pode haver algo de mortal no culto de Deus.

SOLUÇÃO. – Como diz Agostinho, a mentira perniciosa por excelência é a que tem por objeto as coisas da religião cristã. Ora, a mentira consiste em exteriorizarmos o pensamento de modo contrário à verdade. Mas, uma causa pode ser expressa tanto por palavras como por atos; e nesse modo de significar pelos atos consiste o culto externo da religião, como do sobredito se colhe. Portanto, será pernicioso o culto externo que significar uma falsidade. Ora, isto pode se dar de dois modos. – De um modo, relativamente à coisa da qual discorda a significação do culto. E então, nos tempos da lei nova uma vez consumados os mistérios de Cristo, é pernicioso fazer as cerimónias da lei antiga, que simbolizavam esses mistérios futuros; assim também seria funesto dizer que Cristo haverá de sofrer. – De outro modo à falsidade do culto pode provir de quem o pratica; e isto, sobretudo se dá com o culto público, que os ministros prestam em nome de toda a igreja. Pois, assim como seria falsário quem propusesse um negócio, em nome de outro, que não lh’o cometeu, assim também incorreria no vício de falsidade quem, em nome da Igreja, prestasse a Deus um culto contrário ao modo que ela com a sua divina autoridade instituiu, e passou a ser costume. Por isso Ambrósio diz: É indigno quem celebra um mistério de modo diferente do pelo qual Cristo o instituiu. E pela mesma razão, também a Glosa diz: a superstição consiste em aplicar o nome de religião à tradição humana.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Deus, sendo a verdade, invocam–no os que o cultuam em espírito e verdade, como diz o Evangelho. Portanto, um culto que encerra falsidade não contém propriamente a invocação salvadora de Deus.

RESPOSTA À SEGUNDA. – Antes da lei escrita, os justos eram instruídos pela inspiração interior, quanto ao modo de cultuar a Deus, e a eles os seguiam os outros. Mas depois, os homens foram instruídos nessa matéria por preceitos externos; e desde então é funesto transgredi–los.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Os costumes diversos da Igreja em matéria de culto divino em nada repugnam à verdade. Portanto devem ser observados, e é ilícito abandoná–los.