Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Art. 2 – Se tentar a Deus é pecado.

O segundo discute–se assim. – Parece que tentar a Deus não é pecado.

1. – Pois, Deus não manda nenhum pecado. Ora, mandou que os homens o provassem, o que é tentá–lo. Assim, o Evangelho diz: Levai todos os vossos dízimos ao meu celeiro e haja mantimento na minha casa e depois disto fazei prova de mim, diz o Senhor, se não vos abrir eu as cataratas do céu. Logo, parece que tentar a Deus não é pecado.

2. Demais. – Assim como tentamos a outrem para lhe experimentar a ciência ou o poder, assim também podemos fazê–lo para lhe experimentar a bondade ou à vontade. Ora, é–nos lícito experimentar a bondade ou mesmo a vontade divina, conforme à Escritura: Gostai e vede quão suave é o Senhor. E noutro lugar: Para que experimenteis qual é a vontade de Deus, boa, agradável e perfeita. Logo, tentar a Deus não é pecado.

3. Demais. – A Escritura não repreende ninguém por deixar de pecar, mas sim, por cometer pecado. Assim, repreende Acáz, que às palavras do Senhor – Pedi para ti ao Senhor Deus algum sinal – respondeu: – Não pedirei tal nem tentarei ao Senhor. E foi–lhe dito: Por ventura não vos basta ser molestos aos homens, senão que tendes ainda ânimo de também no serdes a meu Deus? E lemos que Abraão disse ao Senhor: Por onde poderei eu conhecer que a hei de possuir? isto é, a terra prometida por Deus. Semelhantemente, também Gedeão pediu um sinal a Deus sobre a vitória prometida; E, contudo não foram repreendidos por isso. Logo, tentar a Deus não é pecado.

Mas, em contrário, a lei de Deus proíbe fazê–lo, quando determina: Não tentarás ao Senhor teu Deus.

SOLUÇÃO. – Como dissemos, tentar é fazer uma experiência. Ora, ninguém experimenta aquilo de que está certo. Portanto, toda tentação se funda nalguma ignorância ou dúvida, ou de quem tenta, como quando experimentamos uma coisa para lhe conhecer a qualidade; ou dos outros, como quando experimentamos alguém para que eles o conheçam; e nesse sentido dizemos que Deus nos tenta. Ora, ignorar ou duvidar das perfeições de Deus é pecado. Por onde é manifesto que tentar a Deus para lhe conhecer a virtude é pecado. Mas, experimentar as perfeições de Deus, não para conhece–las, mas para revelá–las aos outros, isso não é tentá–lo, pois se funda numa justa necessidade ou nalguma pia utilidade ou em outras condições que devem concorrer para tal. Assim os Apóstolos pediram ao Senhor que, em nome de Jesus Cristo, lhes desse sinais manifestativos aos infiéis ela doutrina de Cristo.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Pagar os dízimos era preceito de lei, como estabelecemos. Por isso era necessário por obrigação de preceito e tinha a utilidade referida pelo texto: para que haja mantimento na minha casa. Portanto os que os pagavam não tentavam a Deus. Quanto ao que o texto acrescenta: fazei prova de mim, não devemos entendê–la em sentido causal, como se devessem pagar os dízimos para provarem se Deus lhes abriria as cataratas do céu; mas, consecutivamente, porque, se pagassem os dízimos, provariam por experiência os benefícios que Deus lhes fizesse.

RESPOSTA À SEGUNDA. – De dois modos poderemos conhecer a bondade ou a vontade divinas. – Primeiro especulativamente e, neste caso, não é lícito duvidar nem experimentar se a vontade de Deus é boa ou se Deus é suave. – O outro conhecimento que podemos ter da vontade ou da bondade divinas é o afetivo ou experimental, quando em nós mesmos experimentamos o sabor da divina doçura e a complacência da divina vontade. Assim, de Hieroteu diz Dionísio que apreendia as coisas divinas por um sentimento de harmonia com elas. É neste sentido que o Espírito Santo nos exorta a provar a vontade de Deus e gozar–lhe a suavidade.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Deus queria dar um sinal ao rei Acáz, para instrução de todo o povo e não só dele. Por isso foi repreendido como obstáculo à salvação geral, por não querer pedir o sinal. Nem, se o pedisse, tentaria a Deus, quer por fazê–lo por ordem de Deus, quer porque isso consultava à utilidade geral. – Abraão pediu um sinal, por inspiração divina. Por isso não pecou. – Gedeão parece ter pedido um sinal, por tibieza de fé. Por isso não pode ser escusado de pecado, como o ensina a Glosa a esse lugar. E Zacarias pecou quando disse ao anjo: Por onde conhecerei eu a verdade dessas coisas? E foi punido por causa dessa incredulidade. Mas, convém saber que de dois modos se pode pedir um sinal a Deus. – Para conhecer o seu poder ou a verdade da sua palavra. E isto, em si mesmo, é tentar a Deus. – Ou para sabermos se um ato agrada ou não a Deus. E isto não é de nenhum modo tentá–lo.