Capela Santa Maria das Vitórias

Missa no rito romano tradicional em Anápolis

Artigo 3 – Se a prudência conhece o particular.

O terceiro discute-se assim. – Parece que a prudência não conhece o particular.

1. – Pois, a prudência tem a sua sede na razão, como se disse. Ora, a razão tem por objeto o universal, segundo Aristóteles. Logo, a prudência não conhece senão o universal.

2. Demais. – As coisas particulares são infinitas. Ora, o infinito não pode ser compreendido pela razão. Logo, a prudência, que é a razão reta, não conhece o particular.

3. Demais. – O particular é conhecido pelos sentidos. Ora, a prudência não existe nos sentidos; pois, muitos têm os sentidos exteriores perspicazes e não são prudentes. Logo, a prudência não conhece o particular.

Mas, em contrário, o Filósofo, a prudência não conhece só o universal, mas, há de conhecer também o particular.

SOLUÇÃO. – Como se disse antes, à prudência pertence, não só o considerar racionalmente, mas também o aplicar-se à obra, fim da razão prática. Ora, ninguém pode convenientemente aplicar uma coisa à outra, sem conhecer a ambas, a saber, o que deve ser aplicado e o ao que deve sê-lo. Ora, os atos versam sobre o particular. Por onde e necessariamente, o prudente há de conhecer os princípios universais da razão e os casos particulares sobre que versam as ações.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Por certo que, primária e principalmente, a razão tem por objeto o universal; pode, porém, aplicar princípios gerais a casos particulares. Por isso, as conclusões dos silogismos não somente são universais, mas também particulares; porque o intelecto, por uma certa reflexão, também se estende à matéria, como diz Aristóteles.

RESPOSTA À SEGUNDA. – A infinidade dos casos particulares, não podendo ser compreendida pela razão humana, daí vem que são incertas as nossas providências, como diz a Escritura. Contudo, pela experiência, as infinitas coisas particulares se reduzem a um certo número finito delas, que se dão na maior parte dos casos, e cujo conhecimento basta à prudência humana.

RESPOSTA À TERCEIRA. – Como diz o Filósofo, a prudência não tem sua sede nos sentidos externos, pelos quais conhecemos- os sensíveis próprios; mas, no sentido interno, aperfeiçoado pela memória e pela experiência, de modo a julgar prontamente das experiências particulares. Não, porém, que a prudência resida no sentido interior, como no sujeito principal; mas certo que, principalmente, está na razão; porém, por uma determinada aplicação, chega até ao senso interior.